A morte não é uma festa – Por Pablo Castro

"Ainda a morte não é uma festa", afirmou Nietzsche em seu Zaratustra. Sabemos que a não-alegria quando cessa a vida é uma identidade do ser humano e seus grupos. Digo isso porque, por mais que diversas culturas e tradições tenham ou tiveram algo a dizer sobre a morte, a ausência de alegria é o que, de certa forma, caracteriza.


A afirmação do filósofo alemão (de que a morte não é uma festa) está inserida num contexto em que é preciso afirmar a vida e afirmar a tal ponto que a morte deveria apenas ser mais uma festa do gozo da potência da vida. Ou seja, o filósofo deseja que é preciso “dançar” com morte assim como Dionísio dança com a vida, mas, no entanto, é preciso, antes disso, viver a vida em sua potência de ser um ‘devir’. Em outras palavras, ao rasgar-se pela própria vida e pela vida dos seus a morte, triste e façanha, ganharia outro modo de ser vista.


Nesse sentido, a não-alegria diante da morte está associada a algo que não foi vivido; algo que não foi sentido ou experimentado; algo que não foi dançado. Já se perguntou o que nos impede de viver a vida e sua potencialidade? O que? 


Para Nietzsche, a pura submissão à moral e aos valores preestabelecidos podem tornar o ser humano aquilo que ele não é fazendo com que ele deixe de viver e de morrer também. 


Também a moral e os valores religiosos foram atacados, analisados e estudados por Nietzsche no Séc. XIX que trouxe, não uma filosofia existencialista, puritana ou revolucionária, mas sim uma filosofia capaz de buscar sentido e valor para a própria vida.

 

Em nossos dias, se Nietzsche estava certo ou não em sua filosofia e no contexto da Alemanha do séc. XIX é outra questão, o importante é que a afirmação de que “a morte não é uma festa” é um dado marcado em nós. 


Diariamente as pessoas morrem porque é próprio da vida morrer, porém algumas são assassinadas, violentadas, covardemente aniquiladas. Há a morte física (corpo, matéria, o existente) e há a morte dos sentidos, dos valores, morte dos afetos outrora revisitados.


É realmente não pode ser uma festa desejar a morte para eliminar o divergente. Não é uma festa a morte pelo racismo e preconceito de gênero. Não é uma festa a assassinato da ética. Não é uma festa a morte do respeito. Não é uma festa a morte política. E, quiçá, não é uma festa a morte de Dionísio que em nós habita.


Sabe por que a morte não é uma festa? Porque há uma vida possível de ser outra mais bonita e interessante do que a nossa mediocridade.

Pablo Castro - Poeta, Professor de Filosofia,  tricolor carioca e ativista das causas sociais.