Tristeza, torresmo e Ypióca no boteco

Caminhava apressado pela cal√ßada quando encontrei Zeca Nobre - o vizinho que frequenta o p√© sujo que tomo cacha√ßa uma vez e outra. Ele estava meio angustiado e com um semblante p√°lido. Vestia uma cal√ßa jeans e uma camisa preta. 

Ao me ver acenou e perguntou para onde estava indo com tanta pressa. Daí revelei que queria ler um pouco, tomar um banho e descansar. Coitado, não sabia ele que estava mesmo indo jantar pela segunda vez.

O simp√°tico Nobre olhou para mim e disse que n√£o estava se sentindo bem porque acabara de assistir ao jornal e as coisas no Brasil estavam muito ruins. Segundo ele, tudo acabou. Zeca confessa que sente nojo de pol√≠tica e que s√≥ a f√© dele para lhe acalmar. 

Ele segurava minhas m√£os e eu segurava minha fome naquele encontro fadonho. Porque nosso √ļltimo encontro sobre pol√≠tica foi no processo de Impeachment da Dilma e sei que o Zeca n√£o s√≥ n√£o gosta de pol√≠tica como n√£o gosta de buscar informa√ß√Ķes para al√©m das capas de jornais. 

Mesmo assim, levei o Nobre at√© o Amarelinho - aquele Bar Tradicional no Centr√£o do Rio de Janeiro - pedi uma Ypi√≥ca e uma por√ß√£o de Torresmo para relaxarmos. Afinal, ningu√©m merece ficar muito tempo numa tens√£o danada: nem eu, nem ele, nem voc√™, nem o Brasil. 

Zeca n√£o gosta de pol√≠tica, lembram? Mas ele queria saber o que estava acontecendo no Brasil porque os jornais o deixaram confuso e at√© hoje ele n√£o sabe o que fazer. Eu n√£o gosto de convencer ningu√©m a nada, gosto de pol√≠tica a amor pelado, por isso pedi cacha√ßa e comida porque quando saciado a gente vai longe... 

Foi assim que expliquei ao Z√© a queda do Governo Temer e sua rela√ß√£o com a imprensa: algu√©m n√£o est√° saciado com a carne dele ou algu√©m de barriga cheia largou o prato com interesse na sobremesa. 

Com alguns minutos de sil√™ncio e com a boca suja de gordura, Zeca confessou ainda que o povo n√£o sabe votar, que pol√≠tica √© s√≥ roubalheira e que √© melhor matar todos de Bras√≠lia e que s√≥ assim o Brasil ia melhorar. 

Foi a√≠ que dei uma golada na Ypi√≥ca, engoli um torresmo, olhei bem nos olhos do Nobre e disse: "Ca-ra-lho, Zeca! Assim n√£o d√°. Sua f√© s√≥ serve para soltar Barrab√°s e ouvir Notici√°rio faminto". 

Ele sorriu e disse que est√° confuso para votar em novo Presidente da Rep√ļblica, mas que quer algu√©m que pense no povo. Falou do Lula entre os Dentes, mas disse que quer uma solu√ß√£o logo porque n√£o suportar√° fazer terapia de boteco. 

Fiquei na minha porque n√£o se eu falasse Poder, Rela√ß√£o, Estado, Jogos de Interesse, Democracia,  e pol√≠tica de coalis√£o, seria acusado pelo Nobre de estar usando Filosofia Barata. 

Pedimos a conta e, j√° meio b√™bado e meio angustiado, o desnorteado Nobre soltou um "Direto J√°". 

Direto pra casa... 

Esse Nobre é engraçado.

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