O intercessor

O diabo foi convocado para uma reunião dos anfíbios que decidiam o nome do novo síndico do lago. Chegou ele num ônibus lotado e atrasado quando a confusão já estava armada. Ele interrompeu a gritaria, pediu um copo com água e tirou uma dipirona da mochila – velha e rasgada – tomando dois comprimidos de uma só vez para aliviar a dor de cabeça causada pelo trânsito e as longas horas de viagem.

Passados alguns minutos, com uma voz de mau gosto e um tom desafinado, o diabo perguntou o porquê daquela confusão. Os anfíbios lhes disseram que um grupo de animais racionais não queriam aceitar que um sapo ou uma rã fosse o novo organizador do Lago. 


Daí as baratas e os ratos gritaram ao diabo que o lago era de todos e a zona era natural, ou seja, os sapos estavam querendo privilégios com essa história de “organização do lago”. Nesse momento, o diabo tirou um chiclete do bolso e começou a fazer bolas. Os pássaros e as gaivotas alçaram voo no ombro do Lúcifer e contaram que os sapos estavam criando uma forma de punir os outros colegas por pura inveja e ressentimentos porque eram os únicos que não eram escolhidos para serem domesticados pelos seres humanos. Gargalhando disse o diabo:

- Quem tem um sapo de estimação? Nunca vi. Mas seria engraçado. 

Os peixes e os vagalumes pediram a palavra e disseram ao Demo que seria interessante ter um líder, mas não seria justo o poder ficar entre os anfíbios. O Diabo concordou com a cabeça. As moscas levaram faixas contra o autoritarismo dos sapos. No entanto, primeiro o Diabo corrigiu os erros de concordância verbal das faixas e, depois, orientou a revisão. Após muita conversa, denúncia, protesto e defesa, o Diabo perguntou pelas formigas e abelhas. Ninguém soube responder, porém os vagalumes foram buscá-las. 

A confusão era tanta por liderança que o Diabo fez um discurso imponente sobre física, biologia e até filosofia. Falou com elegância. Falou firme. Deu bronca nos desavisados que queriam destruir a coletividade em prol de uma individualidade prazerosa farsante. O diabo citou Samba brasileiro, pop americano e lambada. O Diabo falou das ações impensadas. E da falta de riso naquele lago. 

E, assim, diante das formigas e das abelhas ele – o Diabo – fez uma saudação respeitosa e pediu todos para que aprendessem com elas o amargor, labor e sabor da vida. Os sapos não entenderam nada e cogitaram que o Diabo fosse Fake. 

Mas, eis que de repente o diabo solta um agudo e manda os ratos fazerem coro e canta raça negra. Os vagalumes animaram com as luzes e no meio da alegria e do riso o Diabo passou a rasteira nos sapos e elegeu o “colégio da organização do lago” sendo responsáveis as formigas e as abelhas. 

O diabo mandou parar o som, tirou mais duas dipironas da mochila, pediu um xixi do rato ao lado e bebeu com toda vontade. E mais, tirou o celular do bolso e pediu um Uber para sair do fim do mundo. Se o problema do Lago foi resolvido, vocês já sabem quem chamar. Só resta saber quem o Diabo pensa que é.

Inté. 


Pablo Castro - Poeta, Professor de Filosofia e 
tricolor carioca.