Sustentabilidade ou boas práticas agrícolas?

O tema sustentabilidade na cafeicultura volta à tona com muita força esse ano. E o que está mais levantando essa agenda é o fato de possível contaminação de grãos de café exportados por defensivos agrícolas. A sustentabilidade é um tema que gosto muito de debater, pois temos muita informação desencontrada a esse respeito, e precisamos ficar atentos, filtrar o que de fato seja algo que traga relevância à nossa vida cotidiana.

Quando lemos que estamos usando os defensivos em excesso ou que há contaminação de nossos produtos, seja para exportação ou para o mercado interno, ligamos um alerta e passamos a refletir sobre se o uso de produtos químicos nas lavouras é uma ação que pode ser chamada de sustentável.

Mas venho aqui dizer - e chamo quem quiser para o debate - que é possível separar uma discussão sobre agrotóxicos e defensivos agrícolas no âmbito da sustentabilidade do meio rural! Vejam: Agronomia tem por definição do “dicio” na internet: “s.f. Agricultura. Reunião dos conhecimentos, técnicas e dos procedimentos práticos que conduzem o exercício da agricultural. (Etm. agrônomo + ia/ pelo francês: agronomie)”. O mau uso da “agronomia” leva, de fato, a práticas que tendem a não ser sustentáveis ou que a pesquisa ainda não conseguiu mostrar para onde temos que caminhar. O que antes era o certo, hoje não é mais.

E aí entra onde eu queria chegar: não adianta ficarmos parados criticando o “uso indiscriminado de agrotóxicos”. Precisamos trabalhar o meio rural de forma consciente, com práticas agronômicas eficientes e eficazes. Temos que levar em consideração que a tecnologia sempre está evoluindo e, a partir daí, começar a mudar o discurso para aplicação das “boas práticas agrícolas”. Este conceito foi muito bem trabalhado alguns anos atrás, puxado pelo brilhante trabalho do Incaper no Espírito Santo, e disseminado para todo o País.

É preciso partir para a prática. Mas não podemos descartar a importância das discussões a respeito da aplicação das boas práticas agrícolas, principalmente na cafeicultura. As mudanças estão ocorrendo. Hoje, fala-se muito na contaminação de cafés por agrotóxicos (vou chamar assim porque o mau uso do defensivo agrícola tem que ter esse apelido). Temos que levantar esse assunto, provocar essa discussão, e agir.

Estamos trilhando justamente este caminho. Neste mês, começamos a trabalhar com a união de vários atores importantes do meio rural, especialmente na cafeicultura: Cecafé, Nestle, Nespresso, Nescafé, Incaper, Cooabriel e Robustacoffee. Empresas e instituições que, juntas, estão propondo uma série de ações, eventos e capacitações.

O que já tem firmado: mais de 60 cursos para produtores rurais (cada um com 28 horas/aula) e 20 dias de campo (nos quais o tema central será o manejo do mato nas entrelinhas dos cafezais, e tendendo, assim, a uma diminuição no uso dos herbicidas, maior conservação do solo, diminuição da contaminação dos cafezais, entre outros benefícios).

A discussão está aberta, e as ações já começaram a ser elaboradas. Isso, sim, são boas práticas agrícolas que produzem resultados efetivos no campo. Isso é o que deve ser feito!

 

Mauro Rossoni é Engenheiro Agrônomo, com especialização em Pecuária Bovina e atualmente é Diretor Técnico do Incaper.