A ficção tem um quê de realidade que surpreende - Por Pablo Castro

Rio de Janeiro, 27 de Abril de 2018.

Meu vizinho, Josef Costa, ligou bem cedo para contar que havia sido convidado para ser o mais novo colunista de um famoso Jornal carioca. Ele estava numa euforia como se tivesse ganhado um milhão e meio de reais.

Josef é filho de um empresário muito respeitado por seus clientes. Afinal, com um negócio para lá de fundamental em tempos de crises pessoais, políticas e religiosas não é recomendável ficar distante do pé sujo da esquina do Centrão da cidade que faz promoção de litro de Itaipava.

Muito bem, voltemos a Josef e seu convite. Conheci Josef entre a Rua Men de Sá e Riachuelo - Vulgo Arcos da Lapa - nos meus primeiros dias de Rio de Janeiro quando me espantava com a quantidade de gente que atravessa as avenidas  Rio Branco e Presidente Vargas; quando me sentia enciumado com os bares lotados ao final de expediente; quando me causava estranheza ver a quantidade absurda de pessoas em situação de Rua ao mesmo tempo em que o preço dos restaurantes era por cada GRAMA. Grama; quando estava aprendendo a complexidade política na Cidade que elege um militante dos Direitos Humanos e um Militar Autoritário; quando estava aprendendo a andar sozinho por cada parte do Centrão e voltar para a República; quando ficava olhando os altos prédios; quando estava nu e cru numa capital economicamente cara, culturalmente rica, socialmente desigual, politicamente contraditória.

Conheci Josef, entre a frustração de um dia inteiro entregando currículo sob um sol de 40 graus, numa sexta-feira de Oxalá. Eu estava suado e cansado. Então, decidi ficar próximo aos arcos. Estava lá quietinho quando, de repente, aproximou-se de mim um sujeito bem arrumado perguntando qual condução passaria pela URCA – Urca é um bairro nobre do Rio. Respondi dizendo que não era do Rio e não conhecia nada por ali. Pronto. Foi o prato cheio para ele. O sujeito arrumado puxou conversa fazendo muitas perguntas ao passo que eu lhe respondia sem entrar em detalhes. 

Lembro que ele falou que Guarapari era a Capital do ES. Veja só. Guarapari. Ele nunca tinha escutado falar de Linhares. Entre conversas e risadas ele confessou que estava indo visitar um grande amigo Chefe do departamento de futebol porque esse amigo queria lhe entregar uma grana. Era um dinheiro que o pai havia enviado.

Nesse dia, por mais bem arrumado que Josef estivesse, o cheiro de tristeza estava impregnado nele. Eu que gosto de gente, das histórias, dos dramas, das peripécias, dos mistérios e dos assombros – porque é uma forma de ver como a vida funciona de variadas formas – fiquei ali escutando aquele desconhecido a falar de si como se eu fosse seu melhor amigo ou um padre no confessionário, ou um médico no consultório ou até mesmo um freudiano numa sessão de análise.

Ali, de pé, cansado e frustrado, escutei atentamente Josef. Ele revelou que estava saindo do Brasil porque havia contado para a família e amigos que tinha contraído o vírus HIV e todos já estavam sabendo. Nesse momento, ele fez um silêncio contrito por alguns instantes e voltou ao assunto. Josef começou a relatar os casos sexuais e até indicou lugares, alertando sobre outros, falou das meninas de programas e dos rapazes. Falou da liberdade. Josef disse que era preciso não ter medo para ter o que temer depois. E quanto à liberdade, ele tinha certa clareza da relação poética, filosófica, teológica, política e cruel que ela possui.

Solitário, com meia idade, autônomo, boêmio, gigolô, político, artista, compositor, militante, desempregado, trabalhador. Ele era plural. Josef me perguntou se acreditava em Deus e eu lhe respondi que não acreditava na mega-sena. Ele sorriu largamente dizendo que queria me encontrar mais vezes. Josef me chamava de “do interior”.

No dia que nos encontramos ele perguntou várias coisas, menos o meu nome. Falou sobre seus dramas, que juntos aos meus, dominaríamos o mundo. Ele pegou meu contato não sei como. Deve ter sido alguma entidade.

Hoje cedo, quando ele ligou para falar do convite sobre ser colunista, falou que estava querendo sorrir mais, que tinha bloqueado noticiários de violência e guerra, que estava assistindo muita comédia e inventando pratos exóticos porque já que estava no fim da vida que ao menos fosse divertido.

Josef é sagaz, mas pouco sei dele e quando ia perguntar sobre o conteúdo da coluna, acordei confuso e atrasado lembrando desse tal Josef que nem sei quem é e nunca o vi. A ficção tem um quê de realidade que surpreende. Eu poderia procurar um analista para saber quem é Josef, poderia fazer uma enquete, poderia colocar um cartaz, mas prefiro deixar aqui.

Quem encontrar Josef por aí, diga a ele que Lula tá preso, Marielle assassinada, Rosa Weber não votou ainda, Bolsonaro quer ser presidente e, sobre mim, diga que estou por aí pesquisando sem Bolsa, lançando Clausura, cortando Itaipava e diminuí a presença na Lapa.


Pablo Castro - Poeta, professor de Filosofia e  tricolor carioca.


FOTO: Alexandre Macieira