O livro Clausura nasce do pensar de um pobre metido a escritor - Por Pablo Castro

Fui advertido por algumas pessoas bacanas de que meu apoio ao Lula pode comprometer o lançamento do meu primeiro livro, assim como pode afastar possíveis leitores que não se interessam por política e cultivam ódio ao Lula. Eu sinto muito por essas pessoas. Porque nunca gostei de injustiça. Tão verdade que fui capaz de chamar a polícia para meu próprio pai quando eu tinha uns 16 ou 15 anos de idade numa defesa irrestrita à minha mãe. Eu vi meu pai sendo levado numa viatura. Doeu. Enfrentei a família e as críticas, mas enfrentei. Meu pai melhorou. Pessoa excelente. Quase nunca falo sobre isso, mas agora acho importante. 

Sempre tomei decisões que marcaram e marcam minha vida. Sou pobre e nascido da periferia do interior. Minha mãe não era e não é doutora em nada. Venho de uma família de trabalhadores. Sou fruto de oportunidades. Minha mãe é uma mulher que reverencio e paro tudo por ela, se for preciso. Tá pra nascer mulher de raça. Mulher que ensinou a respeitar até os nossos algozes. Ensinou a ter que enfrentar a vida com leveza por mais dor que se tenha. Mulher que tirava da boca pra dar aos filhos. Mulher que sempre teve audácia.

Tenho profundo respeito pelo meu pai, mas ele há de concordar que teve uma mulher fora do comum. Ele teve uma mulher gigante. De onde venho aprendi valores importantes. E o compromisso com a justiça contra a desigualdade é um forte marcador. Perdi minha irmã quando ela tinha 22 anos de idade. A notícia chegou no jornal de meio-dia. Foi uma porrada. Minha irmã era sensacional. Cozinhava ovo, salsicha, carne moída e imitava os banquetes de novela. Éramos pobres divertidos. Enquanto meus pais trabalhavam, ela tomava conta de mim e dos meus dois irmãos. Ela peitava o mundo. Tinha uma voz linda e cantava nos corais e até numa banda. Morreu jovem, mas ela vive em mim. 

Meu avô um místico. Nunca fez curso de teologia, não leu Marx, não leu Freud, não leu Dante Alighieri, mas tinha uma leitura sensível do mundo, das pessoas e da vida. Era engajado. Meus avós maternos (vivos) vovô pescador, vovó costureira e dona de casa, ganham pra sobreviver. Sempre em contato comigo dizem: “filho, se você precisar é só chamar o vovô e a vovó que eles vão te ajudar”. Isso é dignidade! Isso é forte! O livro Clausura chega num momento muito importante no Brasil. Num momento de conflito e injustiça. Clausura é um pobre metido a ter livro. É alguém que não nasceu em berço de doutores intelectuais. É alguém que não é herdeiro intelectual que ousa a publicar. Clausura é também uma porrada no sentido político. 

Eu sou fruto de políticas públicas educacionais. Eu sou fruto de um Brasil em que pobre possa ler literatura e até produzir para além de aprender assinar o nome. Eu sei do que passei em Linhares, Colatina, Vitória e aqui no Rio de Janeiro. Não sou santo, não sou anjo, não quero ser modelo pra ninguém. Se minhas concepções filosóficas e políticas afastam pessoas, não posso fazer muita coisa porque devo ser avaliado por competência desde que tenha oportunidade. Isso é importante. A questão é que diante do cenário político, apoio o Lula porque as elites brasileiras odeiam a gente que é pobre e não é bem-nascido. E este pobre e não bem-nascido aqui não tem medo de se comprometer com o lado certo da história.


Pablo Castro - Poeta, professor de Filosofia e  tricolor carioca