Tomar vinho ruim requer vergonha na cara. Isso eu não tenho - Por Pablo Castro

Eu poderia falar do livro no Rio de Janeiro, Serra, Linhares e Colatina. Poderia contar do quanto comi as cortesias do avião para compensar o valor absurdo da bagagem despachada – ou sou eu absurdamente pobre também -, poderia dizer um pouco da alegria em encontrar ex-professores, professores, poetas, formadores, estudantes de Filosofia e Teologia, familiares, amigos do pé sujo, galera da literatura, religiosos e ateus falando de #Clausura. Poderia até falar do problemão que é tomar vinho ruim e no dia seguinte ter compromisso. O ministério da saúde adverte: Tomar vinho ruim requer vergonha na cara. Isso eu não tenho, está consumado.

Mas, cá estou para falar que recebi uma carta de um amigo de Amsterdã, João Deusdédico. Isso mesmo. Deusdédico é atento ao movimento da síntese poética e dos versos livres, igualmente envolto ao movimento das histórias paradoxais, escreveu-me parabenizando e criticando a ausência de minha foto nas orelhas e, também para afirmar que o poema síntese do livro é o antepenúltimo. Entre outras coisas, Deusdédico contou, com muito humor, uma cena da vida dele em que, uma vez diagnosticado com uma patologia incomum, resolveu visitar uma amiga de longa data.

Muito bem, ninguém sabia da doença e ele muito angustiado, chegou à casa da amiga e sentiu que ela estava cheia de segundas intenções com ele. A noite correu bem, eles tomaram uísque com guaraná, até que ele revelou que estava com a tal doença incomum - bêbado é demais - e que, por isso, estava sofrendo. Até então, segundo ele, tudo estava combinado de dormirem juntos, mas depois do caso revelado, entre um copo d`água e outro, o colchão dele foi para próximo à cama de Rana. Ela – sua amiga - o acolheu bem, com abraços, mensagens de conforto, saudações de despedida para dormir e fechou a porta do quarto. Pronto, lá foi Deusdédico dormir entre a vasilha de ração e o pote com água de Rana, a cadela vira-lata que "não ronca nem se mexe muito".

Deusdédico disse que ao revelar a doença jogou um balde d`água no tesão alheio e isso lhe rendeu boas risadas com Rana. E, ainda, concluiu: “Sr. Castro, seus poemas me lembram as gargalhadas de Rana”. Tô aqui pensando: Será um elogio? Bom, amanhã mesmo despacho uma carta para esse malandrão que só nos diverte, indicando o nome de um vinho ruim pra ele presentear a amiga.


Pablo Castro é graduado em Filosofia,escritor e mestrando na UFRJ.