Crônica de um aniversariante com cabelo de pico em crescimento

Eu inventei de deixar o meu cabelo crescer. É. Prestes a completar 30 anos de idade, resolvi mudar os ares capilares. Desde sempre, cortava baixinho e nunca soube o que era usar xampu, condicionador, bomba de hidratação e tampouco pomada fixadora. Até laquê tem aqui em casa agora. Rapaz, eu tenho cabelo... Tem gente que chama de cabelo de pico, cabelo bombril, cabelo ruim. Pra gente, que é preto, é só cabelo mesmo.

Lá em casa só meu pai que não me reprovou publicamente. “Deixa o cara fazer o que ele quer fazer”, disse ele num desses almoços de domingo. André e Tobias, meus irmãos, vivem me sacaneando. “Corta logo isso e para de querer ser quem você não é”, recomendou André, o irmão do meio. Como se ele soubesse o que eu mesmo pouco sei.  Pra implicar, falei com minha mãe que preciso de um secador de cabelo pra fazer dar certo um penteado. Ela disse que é pra eu cortar logo esse cabelo baixinho, voltar a ficar como homem, como sempre fui. Imagina se eu resolvo colocar dread?!

Me apego ao apoio – quase silencioso- do meu pai. Mesmo que ele nem se dê conta, a gente é parceiro. As mesmas músicas que Reginaldo ouvia quando eu tinha 8 anos ainda estão no porta CDs de veludo que ele guarda no porta-luvas do carro. Os discos mal funcionam. Sempre que dá, aparece com um pendrive pedindo pra gravar mais MP3 no notebook de André. Impaciente, o malandro inventou que em seu computador  não entra nada via USB e Regi fica lá, sem música nova, resmungando enquanto toma, pelo menos, seus dois litrões diários de Brahma.

O repertório dele tem músicas que eu gosto. Agora mesmo, enquanto escrevo, tô ouvindo Na sombra de uma árvore, de Wando. Até bem poucos dias eu nem me dava conta, mas a verdade é que sempre que tenho saudade dele reproduzo algo que me faz senti-lo por perto. As músicas que ele gosta, e que eu também aprendi a cantar, tem esse poder de aproximação. E aí acabo lembrando da família inteira, apesar deles não serem tão fãs da trilha sonora reproduzida pelo dono da casa.

A dona Marlene, aquela que detesta meu cabelo enrolado, nos apresentou Raça Negra, KLB, J.Neto,  Terra Samba e Leonardo. Era tudo que ela ouvia enquanto cuidava da gente e da casa. Confesso que vez ou outra me pego ouvindo Cristal Quebrado no Youtube. Naquela época os vizinhos também adoravam curtir um som alto. De um lado tinha Marli, fã de Gino e Geno. Do outro, Renilse, apaixonada por Calcinha Preta e SPC. Interfone até hoje é a minha preferida do grupo liderado por Alexandre Pires.

O fato que é quase impossível falar de mim sem mencionar tudo isso. Eu sou essas lembranças e mais um monte de coisa. Com defeitos e qualidades. Trinta anos se passaram e as minhas Bochechas já não são como antigamente. “Eu sou seu pai desde que eu tinha 18 anos”, é assim que Regi fala orgulhoso dele mesmo. Até parece grande coisa ser meu pai. Pra ele é, que adora ser presente. No esporro e no cuidado.

Hoje, eu tenho alguma maturidade pra enxergar que acertei, mas também errei bastante em algumas conduções. Viver deve ser assim mesmo. A verdade é que, carregando o peso dos sentimentos, desejos e das escolhas, eu falhei com muita dedicação e empenho. Fui egoísta nas apostas. Acertei em cheio nos erros. Fui terrivelmente humano do meu jeito. Talvez agora, com o cabelo de pico maior, as pancadas e afagos tenham um peso diferente. Isso, se eu não voltar a ficar careca antes.


Isaac Ribeiro é jornalista, canceriano do dia 25 de junho, torcedor do Botafogo, está inscrito no SPC e é aspirante a mais um monte de coisa.