O livro Clausura é um pecado - Por Pablo Castro

Se este Livro proceder incompreensível, obscuro ou até mesmo muito cheio de armadilha para alguém, a culpa não é minha. Os versos fazem parte de um misto de diversas fases dentro de um processo formativo religioso. O leitor tem em mãos imagens ‘religiosas’ (ou de um religioso) sobre o desejo, a política, a igreja, os valores e falsos valores, a morte e sua nada doce melodia. O leitor não encontra receitas para acabar com o pecado, ao contrário, poderá multiplica-los. Em outro momento, o leitor fica chateado porque rezou por um morto em vez de ter ficado puto e revoltado. Não faltarão momentos em que o livro dirá que sujo mesmo é não gozar. Daí então alguns questionam: Gozar literal? Gozar poeticamente? Gozar existencialmente? Bem da verdade acho melhor não responder essas questõezinhas.

O leitor encontra riso e brincadeira, nada de ‘vale de lágrimas’. O leitor pode se perder no ritmo, mas esse é o objetivo. A metáfora é o carro-chefe desta poesia, afinal ela não deixa o leitor passar pelos versos ‘suspirando, gemendo e chorando’, mas sim gargalhando e um tanto mexido. Nesse sentido, observação importante nas orelhas e na contracapa do livro em que estão invertidos o sentido de conceitos como “clausura”, “espaço”, “respeito”.

Trata-se de um livro que joga e joga alto. Parece inofensivo, mas alguns padres e religiosos, de caráter duvidoso, já estão alertando que se trata de uma subversão e até heresia. Não sei se leram, aposto que não, mas fingindo acreditar que eles (esses alguns) leram fico mesmo orgulhoso de não os agradar. E, olha que mantenho respeito e amizade por bons padres e religiosos, muito bons, generosos e honestos. Vale lembrar que o Bispo Dom Décio fez o prefácio na demonstração de total carinho, respeito e zelo, inclusive pela poesia, algo que esses ditos “padres e religiosos” que censuram não devem saber do que se trata. Espero que ao menos estejam lendo a bíblia antes da homília. Não nos enganemos dos ‘pastores’ que exploram suas ovelhas e até fazem campanha para Bolsonaro pensando que estamos nos obscuros tempos em que a informação não circulava.

Eles analisaram o livro pelo crivo da moral que lhes falta e pela baixa inteligência que têm. Analisaram não o livro, analisaram a mim que nada os devo e tomo minha cerveja, danço, brinco e até choro sem pregar moralismos baratos. Os Padres e religiosos bons que me perdoem, mas alguns da classe crucificariam até mesmo Jesus se vivo estivesse em nosso meio.

Em suma, falando em Jesus, até seus seguidores, certa vez, não entendendo as metáforas, perguntaram: Mestre, por que falas em parábolas? (Mt 13). Sabe a resposta de Jesus? Foi outra metáfora! Trabalhão danado para os discípulos da literalidade... Mas, calma, Clausura ainda é uma obra muito sutil e doce, embora provocativa e pesada para quem embarca na viagem. Evoco, então, o mestre Belchior: Tenho 25 anos de sonho, de sangue/ E de América do Sul /Por força deste destino/ Um tango argentino/ Me vai bem melhor que um blues /Sei que assim falando pensas /Que esse desespero é moda em 73 /Eu quero é que esta poesia torta feito faca/ Corte a carne de vocês. (Belchior, A Palo seco)

Trata-se, a partir de agora, de assunto ignorado!

Vou nessa. Até o próximo gole!


Pablo Castro é graduado em Filosofia, escritor e mestrando na UFRJ.