Os negros maravilhosos do futebol e o preconceito nosso de cada dia - Por Isaac Ribeiro

Eu não queria que a história do meu cabelo virasse uma novela (https://goo.gl/gzYPds). E não vou fazer isso. Acontece que nem mesmo a espetacular Copa do Mundo e o bordão Negros Maravilhosos (do Luis Roberto, da Globo) serviram pra mostrar ao mundo que  a discriminação é uma terrível bola fora. Nesses dias de jogo, a garra e a magia da negritude não foram capazes de frear a língua e os dedos maliciosos do povo contra figuras como o nosso Fernandinho e também o belga Lukaku.

O jovem astro Kylian Mbappé, da França, também mexeu com alguns brasileiros canalhas. Eu, nem de longe, sou/fui um excelente jogador de futebol. No primeiro e único campeonato que disputei em Linhares, em três jogos, meu time levou 23 gols e marcou dois. No quarto jogo ganhamos de WO. Eu jogava no meio-campo. Desconfio que o adversário sabia que não tínhamos chance e nos poupou de um vexame ainda maior. De lá pra cá, foram mais dissabores que amores, afinal, torço pro Botafogo.

Acontece. Se tá feio pra mim, imagina pro meu amigo Vinicius Correia que torce pro Vasco? Vinicius tem o espírito de craque. Saiu de Aracruz para tentar a sorte no concorrido futebol do Paraguai, mas não vingou. Sem problema! Ele voltou de lá com muita bagagem. No caso, eram relógios, roupas e produtos eletrônicos pra vender por aqui. Hoje ele continua trabalhando com futebol, mas nos bastidores. Ele sabe que a praia dele é outra. Se ele esperasse ganhar dinheiro jogando bola...

Dinheiro é mesmo importante. Aqui ou no Paraguai. Dia desses me ofereceram dinheiro pra eu cortar meu cabelo. Sempre que falam, peço mil reais. Ser preto incomoda mesmo algumas pessoas. Semana passada comentaram: “Tô vendo muita gente com cabelo grande igual ao seu. Deixar cabelo crescer assim é coisa de preto mesmo, né?.” Só respondi: “então, tá tudo bem. Sou preto desde 88. Não inventei isso agora.” Talvez antes eu estivesse camuflado de um jeito aceitável. Sempre que a gente coloca a cara no sol vem um ou outro dizer que tudo é exagero, que não precisa disso.

A verdade é que me incomoda ouvir falarem que o Lukaku é um gorila que joga muito bem. É chato ler que o Fernandinho deveria ter queimado mais  e nem ter nascido. A história de que Mbappé seria o Rei dos Arrastões é engraçada. É assim que a gente convive com o preconceito diário. É sempre brincadeira! Tem sempre uma piada carregada de discriminação, desprezo e até ódio. É como disse o Lukaku: “quando eu jogo bem, sou belga. Se vou mal, me analisam como descendente de congoleses.”

O politicamente correto deixou o mundo chato. Antes, podia fazer piada com a gordinha, com o viadinho do trabalho ou com o pretinho da turma que não era nada demais. Agora!? Ainda pode, claro. Mas é bullying. Sempre foi. A diferença é que hoje alguns negros aparecem na TV, gravam vídeos ou escrevem na internet dizendo que esse comportamento incomoda e que é até crime, apesar de quase ninguém ligar pra isso. Todo dia a gente vive um 7 a 1 diferente. À vezes, é 2 a 1. Sempre, é o Brasil que tá perdendo.