Folhetim | Capítulo 3: O assassinato, o padre e a despedida. Por Pablo castro

Me escondi dentro da máquina de lavar fugindo do meu tio, ele matou a esposa com ciúmes de mim. Na cabeça dele, eu e minha tia tínhamos relação sexual constantemente. Ele pensava que ela me favorecia a cocaína em troca de sexo porque ele era brocha. 


Um nó na garganta se instala só de lembrar daquele dia. Foi assim, estava chegando no portão quando escutei os gritos de alguém pedindo socorro. Era ela quem gritava. Aproximei-me da janela e vi que ele a segurava pelos cabelos e a cortava o rosto todo com uma faca de serra. Puxei o telefone e disquei o cento e noventa, mas a polícia não se importava.

Enquanto discava e o policial perguntava sobre meu tipo sanguíneo, vi meu tio com a faca em punho cravar no peito dela algumas dezenas de golpes.

 
Abandonei o telefone e o provoquei da janela de modo que a largasse e ela pudesse fugir, mas foi um equívoco. Ele só a largou depois que cravou a última facada e lambeu o sangue enfurecido porque ela, diante da morte e de dois covardes, disse:

- Sua covardia, Antero, é do tamanho da sua masculinidade frágil. Você nunca me teve na cama. Você se diz macho, defensor da família, temente a Deus na rua, mas dentro de casa não sabe ter prazer, não sabe pedir perdão, e não sabe conquistar. Eu vou amada e tu ficas um vivo brocha.

Não suportei ver aquela cena e gritei para que Tio Antero parasse. Foi nesse momento que ele saiu atrás de mim com um revólver. Os vizinhos se esconderam e trancaram as portas. Daí corri até o convento das irmãs no alto do morro porque lembrei que a lavanderia era grande por conta das roupas que elas lavavam dos padres e dos seminaristas. Havia entrado na casa para fazer manutenção do computador da madre duas semanas antes.

Corri até o convento, pulei o muro, e fui para a lavanderia. Me escondi dentro da máquina de lavar repleta de paramentos litúrgicos. Acho que fiquei desmaiado. Acordei com o padre Jeremias rezando um pai-nosso na minha cabeça. 

Eu que nada tinha de muita fé só sabia pedir ao padre para que rezasse por tia Tereza. Ele me informou, então, que Tio Antero se suicidou com um tiro no ouvido em frente ao convento. Foi um dia difícil para mim porque vi o quanto minha família era hipócrita, pois meu tio me confundiu com meu irmão gêmeo que era quem extorquia tia Tereza e comprometia os esquemas do tráfico de drogas. Josué, meu irmão, estava sumido e eu fui à casa de minha tia atrás de notícias dele.

Padre Jeremias acolheu minha dor de maneira que senti uma presença divina. A família inteira zelava por uma imagem moral cheirosa e virtuosa. Eu, de minha parte, desejava que a família fosse mais feliz, mais humana, menos temente a deus e mais sorridente sem as exigências e condenação a tudo que não fosse o que eles acreditavam. E no que eles acreditavam? Acreditavam que ninguém sabia dos segredinhos sujo. A morte de tia Tereza mexeu muito comigo. Se viva estivesse, estaria comigo ansiosa pelo resultado do exame e me acalmando. 

Tio Antero era um sujeito simples, trabalhador, assalariado e achava que colocar comida dentro de casa era o suficiente para dizer amor. Engano dele porque o amor, amor mesmo, sacia-se de fome.

Padre Jeremias ajudou em minha recuperação. Fiquei algum tempo desnorteado com a cena. Nem sexo conseguia fazer porque lembrava dos golpes de faca. Padre Jeremias não falava de Deus comigo, não falava de catecismo, não fala de mandamentos. Ele falava comigo da vida, dos conflitos, das angústias, dos equívocos, da política e falávamos até do suicídio. Chegou a confidenciar um sentimento de paixão, de desejo e carinho por uma pessoa, mas em seu peito a vocação era maior. 

A fé, segundo Jeremias está na manhã. Jeremias jogava bola, comia farofa no pé sujo, torcia para o time “bate asas”, falava uns palavrões bonitos e deixava o banheiro do convento uma carniça. Foi a forma mais presente de Deus na minha vida.

Depois de alguns meses, reuni amigos para uma confraternização. Pedi para que levassem bebidas, uísque, uma droga leve e camisinha. A noite foi tranquila. Apaixonei-me por uma pessoa e só quis ficar com ela nesse dia. Fiquei um pouco bêbado e fui para meu quarto. Fui tomado por uma sentimentalidade de fim, de encerramento. Era uma confraternização de despedida, mas meus amigos e o meu amor não sabiam.

No quarto, peguei a corda, preparei o nó, puxei o banco... chorei por alguns minutos. Era um suicídio...