Folhetim | Capítulo 4: Nunca fiz nada com o diabo. Por Pablo Castro

Lembrei-me, ali no jogado pronto ao suicídio, as palavras de padre Jeremias tomando uma cachacinha comigo:

- Tu vais tirar a vida por fracasso? Por decepção? Por medo? Por falta de grana? Por dívida? Por falta de amor? Tu vais tirar a própria vida porque julgou que a vida fosse perfume? Esqueceu que carregamos cocô e urina? Vais abandonar a vida por que, neste momento, está confuso, triste e chateado? Quanta covardia, Américo!!

Parecia bobagem, mas foi esse o estalo que me ocorreu naquele ritual de morte. O padre estava certo, não deveria eliminar minha vida por fracasso. Então, está decidido: se for de tirar a própria vida que seja quando estiver glorioso.

Desfiz o nó, retirei o banco, acendi uma vela e rezei. Quem nunca rezou quando estava confuso, com medo e triste? Rezei a Deus, às deusas, aos guias espirituais, ao meu anjo da guarda. Rezei feito sujeito contrito. 

De repente, porém, escutei uma voz sussurrando algo que não compreendia, a vela se apagou e minha boca ficou seca. Já não havia mais ninguém na casa. A minha pouca fé não podia acreditar que ali no quarto uma força negativa estivesse presente. 

Continuei minha prece a Deus e quando disse: - "Ajuda-me, mãe de Deus!", a luz se acendeu e eu estava todo ensanguentado. Então, fui tomado por um desespero emudecedor. Olhei para cima e Pipoca - minha cadela vira-lata - estava cortada e estrangulada na minha corda, no meu altar de sacrifício.

Quem foi o autor dessa barbaridade? Perguntava a mim mesmo. Não poderia ter sido Deus porque a ele rezava. Não poderia ser algum amigo bêbado porque a casa estava vazia. Não poderia ser a própria Pipoca porque ela não é gente. 

Não sou de alimentar discórdias com o diabo porque nunca fiz nada com ele e nem ele comigo, mas assim como Deus, quem sabe ele não tem um seguidor alienado que sai pelo mundo de modo irresponsável, reprimido e covarde. Algum espírito estava no quarto. Isso é fato. E foi ele o responsável pelo mal.

Retirei Pipoca da corda e limpei todo quarto. Tristonho, engoli minhas lágrimas e enterrei com dignidade a injustiçada cadela assassinada.

Mas não esqueci o que aconteceu. Ainda vou investigar e encontrar quem foi o criminoso. O mal não pode comigo! O mal não é maior do que Eu. É maior do que você, leitora/leitor? O mal não pode me intimidar.

O HIV tem mexido comigo. O exame que não chega e eu aqui a contar o que não devia. Estou há dois dias sem gozar. O remédio está fazendo efeito. Estou com medo de morrer sozinho, indigente, escondendo segredos de família, segredos de justiça. Morrer sem dignidade no mar da desigualdade que nos assola. 

Sexo é também uma questão política. As concessões, as alianças, os acordos, os golpes, as traições, as ideologias... HIV para muitos é imoral. Viva a imoralidade!  Não nego nada. Fiz com ela. Fiz com ele. Fizemos. Você fez? Não quero ser anjo e meu único medo é morrer sem antes encontrar quem pode ter me contaminado.

Bom, tenho medo de morrer também sem ser justo com meu anjo de guarda que me abraça apertado, dizendo para ter calma. Caro leitor, preciso dormir porque faz uma semana que não durmo direito. O gás acabou, estou só com água na geladeira, tem um pouco de pó de café, nada de açúcar. Amanhã levantarei cedo.

Rezem por mim em uma prece, podem rezar de verdade. Antes, porém, uma pergunta: quando foi seu último teste de HIV? Qual foi o resultado? Só eu fico angustiado?