Folhetim | Capítulo 5: De frente com o psicanalista. Tire as crianças da sala. Por Pablo Castro

Dormir faz bem. Embora acordar com a cara amassada, a voz de ressaca, o olho puxado e os neurônios tontos, não causa uma boa impressão ao patrão em plena segunda-feira. Mas, como estou patrão de mim mesmo, "empreendedor" é o que me chamam, porque eles tremem ao ouvir a palavra desempregado. Isso mesmo: sem vale-alimentação, sem vale-transporte, sem auxílio moradia, sem nada. Sou empreendedor de um salário mínimo para pagar tudo. Percebe-se que sou um fodido, mas quem não é ou está? Sou um igual a tantos na vida.


A questão é que minha cara amassada e minha voz de ressaca foi à sessão com um psicanalista porque os médicos e enfermeiros do laboratório colocaram na cabeça que precisava de um psicólogo porque eles consideraram que eu estava depressivo. Como não adianta discutir com gente maluca, lá fui eu numa sessão paga pelo projeto social da Igreja. 

Cheguei na sala do analista e ele já estava com a perna cruzada e um olhar sereno. Então pediu para que eu sentasse, iniciando algumas perguntas, ao modo que eu ia respondendo ele ficava: "humm", "anram", "hummm", "fale mais sobre isso". Já estava ficando puto com aquela calmaria toda e aquela falsa tranquilidade. Ele – analista - perguntou sobre a origem do meu nome, sobre meus pais, familiares, escolhas, amores. Perguntas genéricas. Perguntas de quem queria conectar a vida real ao manual de patologias, como se todas experiências fossem classificadas tipo como classificação de espécie de animais e plantas. O analista não sabia que a vida é como água que escapa pelas mãos. Ele não sabia. Talvez tenha lido Freud, Lacan, Reich, Jung e Melaine Klein. Faltava no olhar dele um Kafka, Camus, Kierkegaard
e Beauvoir. Isso para não falar de uma ousadia de Tieta do Jorge Amado e um Zaratustra do Nietzsche, faltava até o olhar de Capitu do Machado de Assis. Se não conhece essas figuras, estou dizendo que faltava vida real e menos superficialidade.

 

Já que faltava algo, então, decidi fazer a terapia a meu modo. Levantei-me da cadeira, em silêncio, tirei os sapatos, as meias, tirei a calça, tirei a camisa, tirei o relógio, os óculos e o anel – só não precisei tirar a cueca porque não uso. Assim, completamente nu, meio excitado, sentei-me novamente. O psicanalista olhou nos meus olhos e fez a mesma coisa. Foi nesse momento que senti firmeza e confiança nele.

 

A sessão ficou melhor. Ele percebeu que nem todo paciente é idiota para ficar em excessiva formalidade. Percebeu que o assunto era sério. Percebeu que não se tratava de um trauma de cunho familiar ou segredinho de infância. Percebeu que estava diante dos sentimentos mais genuínos, primitivos e humanos: medo, raiva, vingança, humor.

 

Caro leitora/ leitor, já fez terapia? Como foi? O psicólogo ficava ouvindo suas mentiras olhando atentamente ou tirava a roupa para encarar suas verdades desnudas?

 

O meu analista ficou completamente excitado quando disse que minha maior preocupação era a possibilidade de ter sido contaminado por pessoas próximas com as quais transei. E ele perguntava por essas pessoas. Contei apenas os três casos que minha intuição desconfiava: o primeiro, quando o meu ex-patrão me levou como motorista na viagem à Itaúnas com a secretária da prefeitura dele. Dormi na mesma casa e, já madrugada, escutei que eles transavam no quarto. Fiquei quieto deitado quase dormindo, mas, de repente, estava o patrão batendo na porta do meu quarto me chamando. Atendi e ele, sem dizer nada, puxou-me até o quarto dele. Estava tudo escuro, eles começaram a passar a mão em mim, tiraram minha roupa e eu fiquei ali dizendo não, mas quando ele pediu para %$ˆ&@ nela não pude resistir. E, depois, ele ficou ajoelhado em mim. Sem camisinha, sem nada. Ela gozou e ele gozou nela, depois foi a minha vez. Com a luz apagada, voltei ao meu quarto e dormi. Acordei com algumas manchas no meu corpo e um pouco febril. Apareceram algumas verrugas... tomei um paracetamol e dirigi de volta para casa como se nada tivesse acontecido. O patrão era casado há quatro anos e a secretaria há 2 meses. Eu era o único solteiro.

O segundo caso, foi...