Folhetim | Capítulo 6: O mal se disfarça de bem - Por Pablo Castro

Prezado Leitor / prezada leitora, antes de seguir para os dois outros casos que relatei ao psicanalista, preciso confessar que ando meio triste, chateado, angustiado, uma dor me incomoda muito. Estou encolhido em meu quarto escuro pensando, pensando, pensando. O medicamento tem um efeito moral em mim. Será que terei coragem de contar na hora da transa – ou antes – que sou soropositivo? Você revelaria? É angustiante ficar esperando um resultado que poderá mudar sua vida. É angustiante saber que a partir do resultado eu serei uma carniça ambulante. Claro, você pode dizer que não estamos nas décadas em que o HIV e a AIDS devastavam jovens e muitas pessoas próximas. Certo.  

Não estamos, mas é devastador saber que o que te dá prazer é o mesmo que te destrói. Principalmente porque a doença é– ao menos a minha – do prazer, do gozo, do ápice do tesão. Quem é que não gosta de sexo? Quem não gosta de uma sacanagem picante? Quem? Quem não gosta de ser desejado nu/nua ou fantasiado de pica-pau?

Falando nisso, lá no analista, completamente nus, contei o segundo caso que me preocupava: quinze dias antes do exame estive na casa de Bigode (nome fictício porque trata-se de sigilo judicial) para comprar um pó de 20. Bigode tinha estudado para ser padre, desistiu, tornou-se advogado e delegado. Era uma pessoa discreta, casou-se e tinha dois filhos. Nos conhecemos num júri-popular em que votamos contra a condenação de uma mulher acusada de deixar paraplégico o ex-marido que a agredia há anos. Bigode era um sujeito atento às nuances entre a lei e o indivíduo. Depois dessa audiência fomos para rua tristes e ele – Bigode – então, convidou para tomar um uísque. 

Segui até a casa dele e na quinta dose ele apareceu com uma carreira de pó. Lá cheiramos e ele começou a mostrar seus vídeos íntimos. De repetente, passou para fotos de crianças nuas e eu levantei-me na hora. Ele ficou sem graça e quis uma sacanagem ali na sala com sua família dormindo. Fizemos. Ele colocou a calcinha da esposa e transamos muito. Sinto tesão em putinhas gostosas. É fetiche. Fui embora ainda pancado. Isso se repetiu por meses. Ele se apaixonou e já estava num clima absurdo. Você já se apaixonou? Sabe o que é ser importuno? Sabe o que é dormir com o amado na lembrança? Acho que foi isso que também me assombrou.

Porém, há quinze dias senti que ele estava estranho e muito preocupado. A gente se encontrou e fizemos loucuras entre sexo, uísque e um baseado. Depois de tudo ele tirou da mochila uma intimação. Fiquei espantado. O delegado divorciado da esposa estava sendo acusado de violentar a própria filha de dois anos de idade. A mãe denunciou o caso à polícia. Perguntei a ele se era verdade e, para maior espanto, ele desabou a chorar e confessou que sentia tesão na própria filha! E não só isso, todas as vezes que cheirava, além de ficar comigo ele saía na madrugada e ia nos saunas e clubes das cidades vizinhas. Foi nessa que ele contraiu HIV há 15 anos.

Bigode era o quase ex-padre, advogado, delegado, pai, pedófilo e soropositivo. Sua aparência era saudável, bonito e elegante porque o mal se disfarça de bem, como já dizia a benzedeira lá da rua.

A gente sabe com quem se deita? A gente sabe o caráter de quem deseja? Perguntava ao analista que estava de pernas abertas para mim.

Há quinze dias, Bigode foi preso e tudo indica que vai a júri-popular. Vai a júri aquele que maquiou a dor, inventou, casou sem amar, pode ter me contaminado – e a outros - e fez o pior: enfiou dois dedos na própria filha.

Não o classifico como louco, não o considero psicopata, não acho que ele tenha múltiplas personalidades. O que você acha que Bigode é?