Folhetim | Capítulo 7: A farsa não dura 24 horas. Por Pablo Castro

Caro ouvinte, precisei de alguns minutos antes de passar para o terceiro, e último caso, revelado ao psicanalista que me olhava estatelado completamente nu. Antes, porém, confesso que sinto nojo do Bigode. Nojo. Todas as vezes que lembro dele algo em mim machuca. Deve ser o coração. A alma diminui quando se comete injustiça. A alma deve diminuir quando se deita com um injusto. Cheguei a imaginar o que mais Bigode não foi capaz de fazer com a própria filha para se satisfazer e esconder seu fetiche por um igual a ele, seu fetiche por dor, cuspe e porradas. 

Meus olhos estavam cheios de lágrimas doloridas e o psicanalista ali sentado olhando para mim. O olhar dele era o que me acolhia. O que você olha, caro ouvinte? Como olha? 

Eu ali tentando encontrar pontas de histórias que fossem capazes de me levar a quem me contaminou com o vírus HIV, puto da vida, fingindo serenidade, mas por dentro puro desespero - mesmo medicado. 

O terceiro caso que suspeito ter sido a contaminação foi com minha ex-namorada. Namorei por dois anos. Não era amor. Eu não amava. E a relação desde o início era um modo pelo qual me refugiava, enganosamente. Desde o início, por não haver amor, por não amar, inventava de ir a casas de sexo para casais, inventava de colocar mais um garota, as vezes, outro cara. Tudo regado ao prazer do desprazer de não amar. 

Por diversas vezes, nós, eu e ela, contraímos sífilis. Nossos melhores amigos já haviam transado com a gente. Alguns, que frequentavam as missas, mandavam mensagem de dentro da igreja que queriam uma sacanagem ao final da celebração. Depois voltavam com discursos duvidosos que não colavam comigo. Não basta mal saber transar, tem que ser mau caráter. 

Tanto é que, o caso que eu mais desconfio foi com o líder do grupo de jovens que seduzia e jogava indireta para mim, só que a fama dele era de ser um enrustido, mas ele achava que ninguém sabia qual era. Certa vez, estava bêbado e marquei uma cerveja com ele lá em casa junto com minha namorada. 

Foi nesse dia que ele pediu para dormir lá em casa porque estava sem condições de ir embora. Eu sentia cheiro de mentira do religioso, mas deixei por acreditar na fé. Minha namorada foi embora e ele ficou. Ficou e acordei na madrugada com ele em cima de mim e o resto vocês devem imaginar. Eu não fujo na guerra. Gosto de aventuras celestiais. 

Na outra semana chegou a notícia de que esse líder da juventude estava entre a vida e a morte numa crise depressiva muito forte porque foi diagnosticado, ao fazer um exame bobo de hemograma completo, que estava com uma micose no ânus e uma suspeita de AIDS. 

Ao receber a notícia fiquei assustado e procurei um teste rápido do posto de saúde e tudo deu negativo, mas devia repetir o teste em trinta dias por conta da janela viral. Refiz e tudo negativo.

Ele foi para casa de familiares no interior de Florianópolis de modo a buscar ajuda, terminei com minha namorada porque a farsa não dura 24h. Eu na verdade estava sendo desonesto comigo, com ela, com Deus, com meus guias espirituais. E o resultado vem. 

Tanto que cá estou, esperando o resultado do meu exame em análise com um psicanalista. Minha vontade é de sair por aí e assumir que sou um impróprio, gozador, zombador, e até pecador. Lixo não sou, sou carniça comestível por aves da natureza.  Sou a principal refeição para quem tem bom gosto. Sou o antídoto para o vírus daquele que não vive e não goza. 

Eu, este que vos fala, pode definir a partida e jogar as cartas, mas antes, porém, descobrirá quem, por maldade ou por descuido, contaminou-me. 

A minha ex eu não amava. Será que sei o que é o amor? O amor pode ser minha cura? Ou será esse o meu veneno?

Estou cansado! Estou cansando... com ou sem resultado, fracassei. Resta-me a dor daquilo que sou.