Folhetim | Capítulo 8: A gente sabe quando o olhar é de desejo ou de ódio

Uma sessão terapêutica pode ser libertadora quando paciente e analista se entendem, e acho que era o meu caso. Veja bem, desnudei-me, confessei, escavei o terreno impermeável de meu ser em busca do meu algoz, mesmo sabendo que no fundo sou eu o algoz de mim mesmo. Eu, à imagem e semelhança de Deus. Eu, o proprietário do prazer. Eu, o filho da morte. Eu, aquele que não suporta dor nem partida. 

Eu, infiel de mim mesmo. Eu. Eu. Eu. Que droga que sou. Não, não sou “aquele que sou”. Sou aquilo que tenho no peito, nas mãos, no pensamento, na memória, no presente, na alma e nos dias que hão de vir. No entanto, gostaria de parar, descansar, esquecer... esquecer!

Foi tudo isso que falei ao psicanalista Pedro que, calmamente, perguntou-me:

- Américo, Américo, o que é isso? – apontando para meu corpo nu.

Eram cicatrizes inomináveis. Eram minhas marcas. Eram minhas memórias. Eram as dores que a calça jeans escondia.

Colocando as minhas roupas apressadamente, lhe respondi:

- Não é nada demais, doutor. São marcas de uma alergia.

No fundo, nem eu acreditava no que estava falando, então, não seria o psicanalista um tolo a acreditar, mas era a minha carta naquele momento.

Ele queria algo a mais. A gente sempre sabe quando alguém tem intenções outras. A gente sabe quando o olhar é de desejo ou de ódio. A gente, por instinto, sabe o que é caça e o que é caçador. O meu psicanalista estava querendo saber mais detalhes, nomes, lugares, instituições, nomes de pessoas do alto clero e do governo, quem era o meu ciclo de amizades, mas tudo isso era secundário para mim.

Importava-me mais tomar cachaça numa taça de cristal para enfrentar os dias do exame, minhas suspeitas, meu medo, meu fracasso e até mesmo impulsionar a driblar tudo que me colocara como carniça.

Foi nesse instante de sede – por uma cachaça boa – que terminei de colocar minha roupa e dirigi-me ao doutor:

- Pedro, estou me sentindo mais aliviado por ter contado a você qual é minha linha de investigação sobre quem poderia ter me contaminado, o seu silêncio e seu corpo nu foram fundamentais para que eu me sentisse à vontade, sua excitação indicava que, no fundo, o que vivi foi mesmo emocionante, embora arriscado. 

O código de ética – ética enquanto conjunto de valores a serem seguidos para preservar a integridade, dignidade, respeito e liberdade do paciente – impede que você saia daqui e revele quem sou. Eu também não contarei que você é o espelho que fica atrás da minha porta. Preciso levantar, arrumar a casa, amanhã é dia da visita da assistente social. Também levantarei cedo, vou trabalhar um pouco, vou mentir por aí, quero alguém para deitar junto, vou mentir ou vou esquecer. Mas, se você, Pedro, ou você, Caro Leitor, revelar para alguém que estou esperando um resultado de HIV, considere-se inimigo meu.

Eu e meu psicanalista Pedro – Pedro tem as chaves que liga na terra e no Céu – teremos mais sessões porque há cumplicidade.

E você, quem são seus cúmplices?