Folhetim | Capítulo 9: No leito de morte

Nobre leitora, nobre leitor, críticos e cientistas, pessoal da mercearia que compro fiado, na madrugada de sexta-feira - da última semana na qual falava do olhar que olha a gente - fui acometido por uma falta de memória e o tempo escorregou... Acordei no leito de um hospital cercado por desconhecidos limpando meus ferimentos e injetando morfina na minha veia.

Confuso, amedrontado, aflito e desesperado quis levantar do leito, porém estava mobilizado pelas mãos e pés. E, mais, Havia uma máscara de oxigênio apertando meu rosto. Então, Ali, naquele momento, só tinham lágrimas e grito contido.

Tomado por uma tristeza embriagante pus-me a pensar sobre o quê teria acontecido e o que estaria fazendo ali naquelas condições. No entanto, não conseguia chegar a nenhuma conclusão, pois nada fazia sentido. Lembro que naquela sexta-feira saí para comprar algo para comer e encontrei duas tias que descobriram que estava desempregado, e fazendo bico de juiz em briga de cachorros em situação de rua. Elas ficaram inconformadas. Até aí eu recordo perfeitamente, mas depois, depois, só lembro daqui deste lugar onde estou amarrado. 

Duas pessoas se aproximaram – pareciam médicos – então, fechei os olhos, e escutei a conversa deles. Falavam em contato com a família e o caráter de urgência de cirurgia. Falavam em reconstituição da mandíbula e da face. Injetaram mais morfina e saíram falando algo de boletim de ocorrência policial.

Se já estava angustiado, a presença deles aumentou a minha aflição. Imagine a vontade de tocar o rosto e até mesmo olhar pelo espelho, mas estava impossibilitado. Era tanta medicação que eles raptaram a dor. Eu sofria imaginando qual desgraceira teria acontecido comigo.

Outra preocupação era com quem eles iriam entrar em contato com minha família. Os meus pais vocês lembram? Os meus irmãos vocês sabem quem são? Os meus amigos vocês conhecem?

De repente, irrompendo meu silêncio contrito, uma enfermeira se aproxima de mim com um semblante piedoso. Nesse momento, arregalei os olhos e ela tomou um susto.

- Olá, bom dia! O senhor acordou! Que maravilha.

Imediatamente fiz sinal com olhos para a prancheta dela e para caneta. Ela, experiente, entendeu que queria me comunicar. Daí perguntou:

- O senhor me escuta?

Respondi com um gesto positivo levemente com a cabeça. Então, Voltei a fazer sinal para prancheta e a caneta. Ela disse:

- Eu sei que o senhor quer falar, mas não posso retirar os aparelhos.

Fazendo um movimento leve com os braços ela colocou a caneta em minha mão e aproximou a prancheta, de modo que escrevi breve e vagarosamente:

- O que aconteceu?

Neste momento, ela se afastou de mim, fechou a porta, e como se fosse o maior segredo de justiça, disse:

- O senhor estar vivo é um milagre de Deus. O que vou te contar não deve sair daqui. Estou há 30 dias cuidado exclusivamente de você. O seu caso é um dos mais complexos. Só de lembrar fico sem chão. O seu corpo foi encontrado à margem de uma vala e câmeras de seguranças registraram dois cachorros tentando te retirar da vala e desamarrar seus pés. Policiais estão investigando, você foi estuprado e espancado brutalmente, depois encheram seus bolsos com camisinhas, amarraram seus pés e ensacaram. Jogaram seu corpo na vala para ludibriar as investigações. É triste dizer, mas seus dentes foram arrancados e parte do lado esquerdo foi jogado água fervendo. Tenho que dizer rápido: seu pai foi preso por confessar que foi ele o autor disso tudo.

Enquanto a enfermeira respondia à minha pergunta eu só sabia chorar sem poder gritar. E novamente um grito contido se estende por minhas lágrimas. Perdão. Perdão. Quero ficar sozinho. Eu volto aqui assim que o coração estiver mais calmo. 


Pablo Castro é graduado em Filosofia, escritor e mestrando na UFRJ.