Folhetim: Disque-Suicídio - Por Pablo Castro

Eu sei que você tem coisas importantes para ler ou para fazer. Sabemos que o cenário político está preocupante; o desemprego em alta; o calor inadequado para o não-salário; tem religiosos usando o nome de Deus em vão para extorquir, abusar e enganar aqueles que têm fé; existem as dificuldades para dar conta da vida. 

E, sei também que você sabe sobre aqueles que tiram a própria vida. Não julguemos nem os condenemos.

Mesmo diante disso tudo, quero falar de Américo. Sim, este sujeito amigo, simples, discreto, o qual você pouco ou quase nada sabe.

Sigamos.

Por ocasião do Folhetim ele ficou receoso de ser 'descoberto'. Por isso, tudo pedia sigilo. Ligava para não 'deixar rastro de mensagem'. Zero e-mail. Zero rede social. 

Mas era o 'anônimo' mais visto, mais conhecido, mais ousado. Era um ser inspirador. Eu gostava de falar com ele quando já estava loucão de Itaipava premium, dois latões pra falar a verdade. 

Dependendo do dia, a gente começa rindo e contando sonhos e terminávamos receitando dicas de remédios para dormir por conta da insônia, preocupações, desesperos. 

Certa vez, arrumei um patrocinador para o folhetim. Daí liguei para o editor do jornal para prestar conta e ele disse que o que eu fizesse seria meu. Pronto. Todo bobo com um salário mínimo quis dividir com Américo - ele sempre precisou de ajuda, mas nunca pediu nada. 

Eu o entendia. É penoso incomodar os outros com nossos problemas. Resumindo: ele não aceitou. Mandou usar a grana para pagar passagem, ir ao teatro, tomar uma gelada. Tudo isso para eu "criasse" ânimo para os dias que não teria nada. Sábio! 

Talvez, veja bem, você conheceu Américo, mas não se lembra porque você não se importa com ninguém. Você é indiferente, e também porque você tem a sua vida para cuidar, afinal, tanto a dor quanto a sorte do outro não é sua, não é mesmo?! 

Pois bem, minha lealdade aos amigos é sagrada. Não dou/darei detalhes de Américo. Não revelo seu nome verdadeiro. Nós tínhamos um pacto de não nos deixar entristecer quando a dificuldade ou a morte chegasse.

Sujeito de múltiplas histórias. Não tinha diagnóstico de depressão, não era hipertenso ou diabético, era saudável. Américo dizia que o HIV com tratamento dava pra se virar, mas o foda mesmo era interromper sonhos, projetos, futuro. 

Ele tinha uma inquietação existencial profunda. Teve que abortar sonhos quando a fome apertou, quando deixou a família, quando suspeitou que seria pai, quando faltou dinheiro para entrevista de emprego do outro lado do "Atlântico". As coisas melhoravam e pioravam constantemente para ele. Era o jogo que ele dominava.

Nós brincávamos sobre o final da história  - eu não queria que no Folhetim ele tivesse HIV, mas sim Lombriga. Ele gargalhava. Cheguei a fazer o texto final. 

Quando o primeiro capítulo foi publicado, Américo ficou preocupado comigo. Então pediu que fizesse um exame de HIV e enviasse para os inimigos. 

Ele dizia que as pessoas maldariam o Folhetim e espalhariam por má-fé inverdades sobre mim, porque segundo suas teorias, as pessoas 'cagam' para literatura, 'cagam' para a metáfora, cagam para a 'história', 'cagam' para a empatia, 'cagam para os jogadores', só querem gol.

Ele foi um irmão que superou uma doença moral - sim, HIV é uma patologia moral por mais que tenha diversos recursos medicinais atualmente - e tocou a vida.

É prematuro dizer que foi HIV. É prematuro dizer que foi o desemprego. É prematuro dizer que foi saudade. É prematuro dizer que foi por fraqueza. É prematuro dizer qualquer coisa a respeito de seu fim. 

O suicídio é coisa séria. Ninguém, absolutamente ninguém sabe a hora que disparará o gatilho da 'loucura' em nossa mente. 

A você, Américo, uma vela na igreja e um copo de cerveja. Faça festa onde estiver. Por aqui, não importa se passarei por louco ou por esquizofrênico. No folhetim de minha vida você continua vivo, saudável, boêmio, contrito e muito irmão.


Pablo Castro é graduado em Filosofia, escritor e mestrando na UFRJ.