Cinco anos de relacionamento quase caem por terra, até que surge uma palavrinha mágica

Em tempos de ego, quem diz "nós", vira rei. Aprendendo a Cuidar da ‘plantinha’ chamada Relacionamento, no "Prosas da vida", com Adriana de Azevedo. Você vai se impressionar com o uma experiência que ela viveu. Aproveite e confira dicas impostantes sobre o assunto "nós".

Há tempos, atendi um jovem casal.  O casamento já durava 5 anos. Ela se mostrava muito chateada durante o atendimento e falava com voz embargada:

- Ele não é nem um pouco romântico, não se lembra do aniversário do nosso casamento, nunca me deu um presente sem que eu tivesse que pedir, chamo para sair e ele só sabe ficar assistindo futebol, não aguento mais esta vida, me sinto um "lixo", acho que ele não me ama.

Ele, boquiaberto, sobrancelha fechada, olhava meio surpreso para a esposa e só balançava a cabeça negativamente, balbuciando as palavras: ‘Ela não me entende’, não me entende mesmo"...

Este esposo tentava se justificar com perguntas direcionadas a companheira:

- Nunca te dei presente? Quantas vezes, fulana, eu falava que ia comprar um presente para você e você dizia que não queria e não precisava? Doutora, uma vez comprei um relógio e ela foi trocar o relógio porque não gostava de relógio. Outra vez, só porque liguei perguntando o número que ela calçava, ela ficou brava, me dando "sermão" por não saber o número do calçado dela.

E eu, terapeuta de casal, observava como fluía a comunicação entre eles. Aaah! Um detalhe: Logo que os dois entraram no consultório, observei que o lugar que escolheram para sentar (longe um do outro), evidenciava um conflito, que também se expressava nas palavras "atravessadas", alteradas e hostis. O casal não parava para ouvir um ao outro, não se olhava e as constantes interrupções entre si, mostravam que a intenção deles na terapia, era tentar me convencer quem tinha razão.

Parecia uma arena de luta, onde alguém deveria sair vencedor, e eu estava ali, na visão deles, como uma pessoa que deveria decidir quem estava certo e errado.

Infelizmente, muitos casais vivem experiências parecidas com a história acima: Não conhecem a si mesmos, não conhecem um ao outro e quando passam a conviver, observam que são diferentes, e diante desta "nova" realidade que incomoda, a tendência é se tornarem intolerantes, impacientes, incompreensivos, inflexíveis, agindo de forma imatura, como “crianças mimadas” esperando que o par realize todos os seus desejos e adivinhe seus pensamentos. Querem continuar vivendo o romantismo e a "paixonite" do tempo de namoro, não se preparando para um "amor um pouco mais maduro", capaz de suportar e enfrentar adversidades e dificuldades advindas de um relacionamento conjugal.

Voltando à nossa história: Interrompi a "luta" com perguntas primeiramente direcionadas para ela:

- Esposa, o que você quer para o relacionamento de vocês? Como posso ajudar?

Pareciam perguntas lógicas, mas não eram. Claro que eu tinha minhas suposições de qual seria a resposta, mas não trabalho com suposições e sim com o que é dito pelo paciente; é uma forma de implicá-lo na responsabilidade do que diz e buscar entender as expectativas do paciente em relação a terapia e ás mudanças que realmente deseja ou não fazer  na vida.

Então ela respondeu:

- Não quero me separar, gosto dele, mas quero que ele mude. 

E você, esposo, o que quer para o seu relacionamento de vocês? Como posso ajudar?

E a resposta foi:

- A mesma coisa que ela.

Voltei a pergunta:

O que significa: "A mesma coisa que ela?" Me explica melhor.

- Gosto dela, mas este jeito dela ‘tá’ atrapalhando nossa vida.

Voltei a perguntar:

E o que vocês acham que precisa acontecer para que o relacionamento de vocês mude?

E ele, de forma mais reflexiva, respondeu meio gaguejando:

- Hum, sei lá... Nós precisamos rever "umas coisas aí, precisamos mudar muita coisa”.

Bingooooo!!!!! Vibrei por dentro com a resposta dele. Ele usou o pronome que é tão difícil de ser pronunciado quando se trata de conflitos no relacionamento conjugal: o pronome "nós", ele disse: ‘nós precisamos’... Ele reconheceu que deveriam enfrentar juntos as dificuldades no relacionamento, "puxou" para si também, a responsabilidade do conflito. Este é um exercício difícil para nós, casados, pois a tendência natural do ser humano é não reconhecer sua participação no processo do qual vive resmungando. E toda mudança só será possível quando nós nos implicarmos como coparticipantes na desordem que nós mesmos estamos causando no nosso relacionamento. "Nós precisamos mudar"... foi o que entendi. Continuei buscando levá-los a refletir nas possíveis mudanças que precisavam fazer, pelo menos até o término do horário da consulta naquele dia.

Agora reflita comigo: Quantas vezes observamos que nosso relacionamento conjugal não está bem e buscamos justificar este "mal estar", direcionando a culpa somente no nosso cônjuge? É sempre o "outro" o maior culpado. ‘É ele que não me escuta, é ele que não me compreende, é ela que me cobra, é ela que reclama demais,  e assim, fazemos acusações e cobranças, enquanto isso, o relacionamento fica prejudicado, afinal, se os dois passam o tempo, discutindo, discordando, se ofendendo, não vai sobrar tempo para cuidar do relacionamento.

O relacionamento é como uma planta que precisa ser cuidada e regada pelo casal, para que floresça e frutifique no tempo certo. Se um ou outro não fizer sua parte no processo, a "plantinha" terá seu desenvolvimento prejudicado e morrerá. Não permita que a ‘’plantinha’ do seu relacionamento morra por falta de carinho, escuta, afeto, amor e compreensão. É hora de mudar e aprender a cuidar melhor do seu relacionamento.

Vai aqui algumas dicas para cuidar com carinho da ‘plantinha’ do seu relacionamento:

- Busque conhecer seu amor: as qualidades, os defeitos, os desejos, os sonhos, as ‘chatices’, lembrando que você também tem suas ‘chatices’ e não é perfeito.

- Invista no seu relacionamento: Busque lembrar e comemorar datas importantes para seu cônjuge, saiam juntos, tenham um tempo para vocês, convide para um jantar a dois, planejem uma viagem, parem para conversar sobre as lutas diárias de cada um, tenham um tempo de qualidade um para o outro;

- Troquem elogios sinceros. Não vale: ‘ você é uma gordinha linda’...rs”, talvez ela não se sinta bem com este tipo de afirmativa, mas vale elogiar com carinho uma refeição, um corte e cabelo, a sobrancelha feita e etc. A regra é: Ressaltar o que seu amor tem e faz de melhor, lembrando que o melhor que ele faça, não tem que ser do jeito que você quer;

- Evite cobranças e acusações do tipo: ‘ eu pedi e até hoje’, ‘você nunca faz nada direito’. Diga o seguinte: ‘Olha, meu bem, sei que você anda muito ocupado ultimamente, mas eu ficaria muito feliz se você pudesse consertar a torneira da cozinha’...’ Meu bem, sei que está cansada, exausta, mas estou com vontade namorar um pouquinho com você’. Deita aqui pertinho de mim... Pronto. Geralmente esta tática dá certo...hehe! O diálogo, a educação e o afeto fazem bem a qualquer relacionamento.

- Respeitem as diferenças entre vocês. Ninguém é igual, graças a Deus! Você seria capaz de suportar alguém igual a você? Que bom que somos diferentes, só precisamos aprender a conviver e a valorizar isso.

- Conversem muito, tenham momentos de DRs (discutir relacionamentos), digam ao outro o que incomoda na relação, o que te deixa triste, o que você gostaria que fosse diferente, mas faça isso num momento de paz e tranquilidade entre vocês, nada de DR em momentos de conflitos, lembrando de evitar sem tom de cobrança, como se só o outro tivesse a obrigação de ‘mudar’. Saiba o momento de falar e o momento de parar e escutar.

- E finalizando, reflita: Porque me apaixonei por esta pessoa? O que ela tem de especial que me encantou? Porque eu escolhi ele para estar comigo? Porque ela, e não outra? Você poderá se surpreender com as respostas que virão à sua mente e chegará a conclusão de que a mudança aconteceu na forma como você passou a olhar para pessoa e não propriamente, a pessoa. Você começou a ver o que antes era ‘luxo, como lixo’, o que era ‘mel como fel’, mas lembre-se, é apenas uma questão de mudar o foco. Busque focar no que há de positivo no seu par e no seu relacionamento. Sempre podemos procurar identificar e valorizar o que há de melhor em alguém. Faça isso hoje, quando encontrar com o amor da sua vida.

Aaaah! O casal da história não retornou ao consultório. Espero que não tenham deixado a plantinha do relacionamento morrer...

Vamos. No caminho te conto outra prosa. Até a próxima.

 

Adriana de Azevedo é psicóloga (CRP 3276/16), palestrante, Coach e educadora parental - email: consultoriapsy@gmail.com