Criança sofre igual adulto, mas demonstra isso de forma diferente. Saiba mais com esta leitura

Hoje a psicóloga Adriana de Azevedo traz um tema que vai ajudar muitos pais, avós, ou responsáveis pelo futuro do Brasil: As crianças (e também adolescentes). É muito importante. Confira:

Estamos nos aproximando do mês de outubro, mês em que comemoramos o dia das crianças, e a “prosa” de hoje fala sobre a necessidade de olharmos para nossas crianças com mais carinho, mais respeito, reconhecendo suas necessidades emocionais.

Em 2016, no mês de julho, fui a Belo Horizonte, fazer um curso com o tema: Psicodiagnóstico infantil, Ludoterapia e aconselhamento de pais. Gosto muito de trabalhar com o público infantil também e nesta época, minha filha, tinha 1 ano e 11 meses. Eu precisei ficar uma semana em BH fazendo esta capacitação e todos os dias meu esposo ligava para mim e eu conversava com ela pelo telefone, mandava fotos, áudios e declarações de amor, tudo o que uma mãe cheia de saudades é capaz de fazer.

Minha filha lidou super bem com esta minha ausência, não apresentando, aparentemente, nenhum sintoma emocional, que é muito comum nas crianças diante de uma mudança de rotina, ausência de alguém e etc.

Quando retornei, foi só festa. Além de trazer “quejim” mineiro para o marido e alguns amigos, eu trouxe vários livros de presentes para ela. “Aaaah! Que legal...bigada mamâe”. Disse, toda feliz. Ela ama que leio para ela e gosta muito de ganhar livros de presentes.

Dias depois, eu estava na sala da minha casa, preparando um material para atendimento que eu faria a uma criança no consultório, quando minha filha, pegou uma folha que tinha a imagem de uma criança chorando, esta mesma imagem que hoje ilustra nossa história. Segue o rumo da prosa:

- OOOh, ele ta “cholando”

- Por que ele esta chorando, minha filha?

- Ele ta “tisti”

- E porque ele está triste? O que aconteceu com ele?

- A mãe dele foi “embola.”

- A mãe dele foi embora para onde?

- Ela foi “embola” para “Belo lizonte”. Por isso ele tá “cholando”

Nesta hora, não tem profissional que dê conta. Só me inclinei mais ainda para perto dela e a abracei. Chorei, chorei... E mesmo abalada diante da expressão do sofrimento da minha filha, eu consegui falar com ela que assim como aquele menininho da imagem, eu também havia chorado muito e sofrido com saudade dela.

A gente continuou ali, abraçadas, eu chorava e ela me beijava. Neste momento eu era apenas uma mãe, que assim como qualquer outra, ás vezes fica triste e sofre, acreditando que por trabalhar fora, está sempre em falta com os filhos. Mas outro dia falo melhor sobre este assunto, voltemos ao assunto principal de nossa prosa de hoje, deixando aqui alguns pontos para reflexão:

- Muitos adultos acreditam que criança não sofre e negligenciam os sinais que elas dão. A minha filha sinalizou que sofreu com minha ausência e eu rapidamente, entendi e acolhi o sofrimento dela, mas a maioria dos pais e cuidadores não se importam.

- Criança sofre ‘sim sinhor’ ... Criança ou adolescente sofre com ausência, sofre com maus tratos, sofre com violência, sofre com abusos, sofre com xingamentos, sofre com desprezo, sofre com gritos, sofre com pressão dos adultos, sofre com abandono, sofre com negligência, sofre com perdas, sofre quando vê os pais em conflito, sofre quando as pessoas que ela ama se distanciam, sofre quando os adultos as distanciam de pessoas que elas amam e etc. Independente da idade, a criança sofre. E eu usei a palavra “sofre” um monte de vezes para você nunca mais esquecer disso.

 - Geralmente a criança não vai dizer que está sofrendo. Crianças e adultos expressam sentimentos de forma diferente. Alguns adultos conseguem dizer: “Aaaf, que raiva, estou sendo perseguida no meu trabalho”, “Estou triste porque perdi alguém que amo”, mas a criança, dependendo da idade e da maturidade emocional, só expressará sua dor emocional numa “linguagem simbólica”, como foi o caso da minha filha, que  projetou na imagem do bonequinho chorando, a sua tristeza por eu ter ficado tanto tempo longe dela.

- A criança ou o adolescente dificilmente dirá: “Hoje estou me sentindo triste, porque meus pais vivem gritando um com o outro, meu pai bebe, bate na minha mãe e isto me deixa aborrecida”, como estou sofrendo!  Possivelmente, numa situação de conflito dos pais, ela dirá: “Mãe, não vai trabalhar, fica comigo hoje”. Ou quem sabe ela diga: “Não quero mais ir à escola.”.

- Crianças ou adolescentes podem também vir a expressar seu sofrimento, em comportamentos, que os pais ‘adooooram’ chamar de “rebeldia”. Fiquem atentos. “rebeldia” pode ser apenas um sintoma de um sofrimento maior.

- Outra forma de expressar sofrimento emocional é adoecer sem causas orgânicas identificáveis. É quando começam a aparecer as dores, na perna, na barriga, na cabeça e em outras partes do corpo e você leva seu filho no médico e o médico diz: “Não tem causa orgânica, procura um psicólogo”. Sem contar as febres emocionais nas crianças menores.

Enfim, o que quero ressaltar aqui é que criança sofre, e incluo os adolescentes também, e seus sintomas podem aparecer de várias maneiras. Fiquem atentos aos sinais e acolham as crianças e adolescentes com carinho e nunca use de cobranças e acusações do tipo: “Paaara de frescura, fica inventando dor para não ir para a escola.”.

Tenha um olhar um pouco mais humanizado para seus filhos, afinal, você ainda não viu as cicatrizes emocionais que eles carregam no coração.

Vem comigo. Te conto outra prosa no caminho.

 

Adriana de Azevedo é psicóloga (CRP 3276/16), palestrante e Coach Educadora parental.