Crianças não devem viver em bolhas. Decepções também fazem parte do crescimento

Há um tempo, conversei com uma mãe muito angustiada. Ela era casada, 2 filhos adolescentes, família de religião cristã praticante. O casal era líder da juventude cristã em uma determinada igreja. Numa das reuniões com a juventude desta igreja, os jovens pontuaram para o casal, a importância de serem trazidos temas sobre drogas, sexualidade, gravidez na adolescência, entre outros assuntos, para que os jovens pudessem discutir, tirar dúvidas e etc.

Neste momento, como diz o ditado: “A casa caiu” na visão daquela líder de jovens. Ela tinha sido mãe muito jovem, engravidou antes de casar, e este era um passado que não se orgulhava. Os filhos não sabiam do detalhe da gravidez antes do casamento e a ideia de ter que discutir alguns destes assuntos com o público jovem a deixava aterrorizada. Ela se questionava: “Como pode? Eu, conselheira de jovens, aconselhar sobre coisas que eu não vivi? Não posso ser hipócrita! Meus filhos vão saber de minha história e de meus erros, não quero que repitam os mesmos erros que cometi”.

O esposo, pelo que ela falou, não estava muito preocupado com o assunto, mas ela estava tremendamente afetada e perdida em seus pensamentos e decisões. Comecei refletir como poderia ajudar aquela mulher ali na minha frente. Gostaria de levá-la a refletir sobre sua conduta do ‘presente’, para que pudesse encontrar outras possibilidades de ‘resolver’ estes conflitos do passado, sem necessariamente ter que fugir ou fazer de conta que eles não existiam.

Não queria ‘dar caminhos’, aliás, psicólogos não apontam caminhos e nem respostas, mas eu precisava ajudá-la a acalmar a mente aflita, para que assim, seu pensar pudesse buscar estratégias para lidar com tantos conflitos e angustias.

Neste momento, eu pedi que ela se reclinasse a cabeça e o tronco sobre a poltrona e perguntei se poderia fazer com ela um exercício de respiração diafragmática que iria ajudá-la a acalmar a ansiedade. Ela aceitou e após alguns minutos, ela estava mais tranquila, foi quando eu disse:

- Você gosta de estórias de conto de fadas? Posso te contar uma estória?

-Sim. Quando pequena me lembro de ter participado de teatros na escola, sempre gostei de conto de fadas.

- Que bacana! Já que gosta de estórias, fecha seus olhos que vou te contar uma estória. Você já deve conhecer, mas vá refletindo conforme eu for contando a estória e observe se você poderá tirar algum aprendizado para sua vida neste momento.

Peguei um livro da ‘bela adormecida’ que guardava no armário da sala e que geralmente uso com crianças e comecei a ler estória:

Num reino muito distante, um rei e uma rainha tiveram uma linda princesinha e decidiram colocar seu nome de Aurora. O rei deu uma linda festa para apresentar sua filha aos súditos de seu reino e convidou todas as fadas para a abençoarem com dons especiais. Porém uma fada má que não havia sido convidada, estava com muita raiva e jogou um feitiço dizendo que aos 15 anos, Aurora espetaria seu dedo numa roca de fiar e morreria.  Porém uma das fadas que ainda não havia dado a sua ‘benção’, reverteu a maldição dizendo que Aurora não morreria e sim, adormeceria por 100 anos, até ser amada e beijada por um príncipe. O rei ao ouvir esta maldição e o perigo que a filha estava correndo, resolveu queimar todas as rocas na fogueira. Foi decretado no reino, que nenhuma família deveria possuir uma roca ou tocar sobre este assunto para que Aurora ao crescer, não soubesse da maldição. Todos sabiam da maldição, menos Aurora.  A princesa cresceu e no dia em que fez 15 anos, passeava pelo reino quando ao se deparar com uma casa abandonada, entrou e viu um objeto enferrujado, pontiagudo e a adolescente, guiada por sua curiosidade, tocou no objeto e aconteceu o que seus pais mais temiam: Aurora furou seu dedo, trazendo sobre ela e a todos os súditos do seu reino, a triste maldição.

Ao final da estória, percebi lágrimas em seus olhos, e perguntei como se sentia:

- Um pouco melhor (respirou profundamente sobre o choro contido)

- O que a fez se sentir melhor?

- Eu entendi a estória. Quanto mais eu fugir do que me incomoda, mais angustiada eu vou viver.

Perguntei de forma bem direcionada:

- Você acredita que não conversar com seus filhos sobre seus ‘erros’ do passado, evitará que eles cometam os mesmos erros que você cometeu? Privá-los de saber a verdade, é o melhor caminho para protegê-los dos riscos de errar?

- Não. Não é o melhor caminho, eu preciso conversar com meus filhos. Temos muito que conversar. Mesmo com vergonha de tudo o que fiz, eu preciso conversar com eles.

Estava bom até ali. Encerrei o atendimento, pois ela precisava pensar por si, sozinha. Despedimos-nos, e ela foi mais aliviada, mais tranqüila, mais pensativa. Não a vi mais, espero que esteja bem e que tudo tenha dado certo. Mas a prosas continua com você que está lendo. Quero te convidar a refletir comigo sobre o que leu até aqui:

Quantos vezes, nós pais e mães, assim como esta mulher da prosa de hoje e assim como os pais da bela adormecida, privamos nossos de filhos de experiências, conhecimentos, frustrações, decepções, acreditando que será melhor para a vida deles, não entrarem em contato com o que, em nossa opinião, poderá fazê-los sofrer? Será que Privar nossos filhos de terem contato com o que nos incomoda é o melhor caminho para protegê-los do que julgamos perigoso?

Se você respondeu “não”, vai aqui uma dica:

Conversem com seus filhos e netos, sobre sexualidade, gravidez na adolescência, drogas, doenças sexualmente transmissíveis, violência, abuso sexual, machismo, exclusão, discriminação e etc,  juntem a esta prosa com eles, princípios como o amor ao próximo, o amor próprio, os valores familiares, os valores religiosos (caso sua família tenha  religião), Conversem sobre empatia, respeito, tolerância com o que lhe parecer diferente, estranho ou ‘ameaçador’.

Conversar, orientar, aconselhar ainda é o melhor caminho para prevenir ‘erros’ e evitar conflitos dentro da família, mas se mesmo assim, vocês, pais, acharem que seus filhos erraram, aprendam a perdoá-los, pois vocês já erraram muitas vezes, e ainda erram. Hipocrisia é exigir que alguém não faça aquilo que você constantemente faz. Não exija perfeição dos filhos, pois vocês não são perfeitos e nunca serão.

Só uma pergunta final:

Como teria sido o final da estória da Bela adormecida, se seus pais, ao invés de destruir as rocas, tivessem ensinado Aurora a lidar com escolhas e conseqüências?

 

Adriana de Azevedo é  psicóloga (CRP 3276/16), educadora, palestrante e Coaching de pais

Contatos: consultoriapsy@gmail.com -  (27) 99812 2283