Adriana de Azevedo - Bullying – A violência ‘silenciosa’, mas não invisível

Recentemente, uma comoção nacional tomou conta de todos nós: O caso do MC Gui desrespeitando a menininha americana foi no mínimo, trágico patético e cruel. Eu confesso que também fiquei muito indignada quando vi na filmagem, a frieza, os risos, o sadismo dele e das pessoas à volta. Como pode alguém ser tão cruel com uma criança? 

Chorei quando vi o rostinho triste e envergonhado da pequena Jully, que devido ao câncer, não tinha sobrancelha e usava peruca. Meu Deus, que vontade de abraçar aquela menininha com muito carinho e dizer para ela: “minha florzinha, eu estou aqui, vai ficar tudo bem.” Acredito que tenha sido também o seu desejo ao ver o desamparo de uma criança tão inocente sendo rechaçada por alguém tão desumano. 

Mas depois de me comover, de chorar, de me indignar com ao caso da Jully, parei para pensar numa coisa: Nós nos inquietamos tanto com aquilo que a mídia mostra, mas nos anulamos e fingimos não ver o desrespeito, a crueldade e a violência sofrida por nossas crianças “debaixo dos nossos narizes”. 

O Bullying que acontece com a criança lá nos Estados Unidos me indigna, mas o bullying que acontece com as crianças da escola do meu bairro, Ah, este aí não quero nem saber, afinal, “A   escola é que tem que resolver isso,” já cansei de ouvir. 

Vou dar exemplo do que acabei de falar para vocês: 

Nesta semana eu fiz algumas palestras sobre bullying em algumas escolas do município. E numa destas idas e vindas, um profissional me enviou uma foto de uma criança de 10 anos, aqui no nosso município, que por estar cansada de ser chamada de “gorda” na escola, cometeu automutilação. A criança fez 16 cortes no seu bracinho ainda miúdo. Outra criança, por causa de bullying, tomou vários medicamentos e encontra-se internada. Meu coração dói pela Jully, mas está destroçado por estas e outras crianças, “invisíveis” aos olhos de muitos, até mesmo “invisíveis” aos olhos de sua própria família, de seus próprios pais, de sua própria comunidade. 

Por que a gente se indigna somente depois que a violência “escancara”?   Será que estamos naturalizando a violência e perdendo a sensibilidade? Será que somente uma matéria midiática de violência é capaz de destravar nossa consciência para refletirmos que o bullying tem matado a infância de muitas crianças da nossa própria família, amigos e vizinhos? 

Faça um teste: pergunte às crianças que você conhece, se elas já sofreram ou sofrem bullying na escola. 

A violência pode ser silenciosa, mas não é invisível. Só precisamos parar um pouco a nossa agitação do dia a dia, dar uma atenção maior às nossas crianças e conseguiremos identificá-la.  

Portanto, comece a observar o comportamento de seu filho em relação às outras crianças, vá à escola, pergunte aos professores sobre a conduta dele em relação aos colegas, ensine à sua criança sobre respeito ao próximo, sobre amor, compaixão, converse com ele sobre o caso da Jully, fale do quanto as pessoas sofrem quando fazemos “brincadeirinhas” que elas não gostam, mas acima de tudo seja exemplo destes ensinamentos. 

Converse com seu filho e pergunte como os outros colegas o tratam na escola, e se souber de alguma criança que tem sofrido bullying, não se omita, ajude a criança, converse com a família, com os professores, converse com a criança, procure ajudar de alguma forma. Não podemos  consentir e nos calar, Precisamos fazer todo esforço, para salvar a infância de nossas crianças. 

E finalizando, diante deste assunto, aproveitei a oportunidade para conversar sobre bullying com minha filha e ensiná-la a importância de respeitar e amar as pessoas. Sentadinhas nos sofá, iniciei a prosa: 

 - Filha, você sabe o que é bullying? 

E ela, séria, olhando pra mim, respondeu: 

- Sim, eu sei. É a chaleira da vovó. 

Apenas sorri, a abracei e fiquei imaginando como seria bom se todas as nossas crianças quando ouvissem falar de “bullying”, recordassem do bule, que é a chaleira da vovó que faz “xiiiiiiiii” quando a água esquenta no fogão.  Um viva à inocência de uma infância bem cuidada.

 

Adriana de Azevedo é Psicóloga, (CRP 3276/16), Coach e educadora parental, Palestrante. Contato: Tel 27 99812 2283   Email: consultoriapsy@gmail.com