REFIS PML
Capítulo

Capítulo 1: À espera de um ouvinte

23/07/2018 18h28
Por: Redação ES 24 HORAS
Pablo Castro
Pablo Castro

Era madrugada do primeiro dia em que deveria tomar a primeira dose do veneno indicado pelo médico. Por que o espanto? Sem palavras bonitas do tipo: fármaco, antibiótico ou morfina. O alívio para minha dor é Veneno ou sete palmos. Pensando bem, sete palmos é, ainda, expressão demasiada floreada para dizer que o outro alívio para minha dor é servir-me de banquete para os bichos que devorarão minha carne um tanto nova, porém gasta. 

Não sofro de depressão, tenho em mim a realidade refletida! Mas esta história é longa e o leitor pode estar cansado de ouvir e ler histórias tristes por aí. Vale dizer que Machado de Assis superou a narrativa da dor ao escrever morto sobre a memória do vivo que foi. Kafka não se contentou com o sofrimento que chegou a condenar o sujeito a ser existencialmente sofredor, embora consciente. Drummond de Andrade colocou num só verso a dimensão suprema da dor ao afirmar que a vida é pétrea. Dostoiévski contrariou e subverteu o destino, mas a dor estava lá contida até para ser livre. E, para coroar tristeza e dor numa só teoria, certas narrativas religiosas prometem outra vida além desta. – registre aí que eu não quero -  Fecho com Djavan: “se quer saber se quero outra vida não, não”. Bom, então já sabem que negocio minha outra vida.

Se o leitor chegou até aqui ou não, se deseja prosseguir ou não, bem da verdade não interessa a mim. Afinal, daqui a pouco tenho que tomar meu veneno e só isso me toma atenção. Antes, porém, de me envenenar homeopaticamente, aqui sobre minha cama onde o sono insiste em não chegar preocupado com os efeitos do alívio, contarei biblicamente a origem de meu estado embrionado, agora, em alucinógenos curandeiros.

Vamos com calma, caro leitor curioso, sinto dores e um tanto de prazer no meu órgão reprodutor - dizem que os novos movimentos conservadores não suportam ouvir falar de ânus, vagina, pênis- pois saiba que eu também não. No popular, entre doutos e o povão, a gente sabe que é flor, espada, caverna. Então vamos com calma porque meu corpo é paradoxo: dor e prazer.

Silêncio, por favor! Cuidado com o barulho, está tarde. E mais, se alguém despertar e me descobrir acordado não me sobrará tempo para confessar a vocês as razões que prometi desta história. Então, a partir de agora sem digressão.

Antes não havia nada. E não me venha dizer que moralismos baratos e doutrinas normativas cretinas são alguma coisa porque, se caso não as considerem como nada, levanto daqui e vou-me embora...

Como vocês sabem, no princípio criou Deus o céu e a terra. E, depois, o Criador fez o mar, céus, dia, noite, trevas, frutos, animais, bichos, e até me criou à sua imagem e semelhança. Então, veja caro leitor, quem vos fala é à imagem de um Deus. Não fique triste em saber que este reflexo de deus aqui está agora a poucas horas de tomar o veneno para curar seu HIV.

Desculpe, mas preciso tomar um copo d`água. Se quiser levantar para ir embora, não ficarei constrangido pelo abandono as paredes escutam sempre quando sussurro ao lado delas. Terminarei de contar...

Assinado: um Missionário

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