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Folhetim | Capítulo 2: Sou aquele que sou - Por Pablo Castro

30/07/2018 12h07
Por: Redação ES 24 HORAS
Pablo Castro
Pablo Castro

Não acredito que vocês saíram por aí espalhando que sou soropositivo sem antes confirmar meu nome e documento no banco de dados do governo. Não pode ser verdade que vocês nem sequer esperaram terminar de tomar minha água para contar quem eu sou. O que vocês sabem de mim? Veja bem, a única coisa que vocês sabem é que sou à semelhança de um Deus. Feio? Imagina vocês que são à semelhança de um Deus fofoqueiro, mesquinho e espalhou por aí que estou morrendo, quando nem certeza têm. 

Poderiam ao menos escutar, mas tudo bem. Já amanheceu e além do veneno, tomarei uma certa distância, afinal vocês estão com um cheiro de medo que pode me fazer mal.

Eu sou Américo Silva, irmão de Antônia, Benedito, Guilherme e Janaína. Meu pai é o ministro da Saúde e minha mãe advogada do Gabinete Presidencial. Assim que os trato, como autoridades. Inquestionavelmente, administrar uma farmácia e coordenar uma casa de medida socioeducativa, com escassez de tudo, não é para qualquer pessoa.

Um minuto: vocês sabem que essa não é verdade?! Esse negócio inventar personagem é coisa que cansa porque depois de uns goles de vinho a gente mistura quem é quem. Os românticos que gostam de contar história de famílias. Vou falar em nome próprio gigante pela própria natureza: à semelhança de um Deus. Não vou ludibriar com a história de Antônia, Benedito, Guilherme e Janaína porque serão incomodados, aposto. Eles são meus filhos adotivos. Peguei para criar. Todos vira-latas. Moram comigo, mas fazem uma bagunça danada e me cobrem quando caio pela sala meio bêbado, meio puto. Teve um dia que acordei com fome e me vi devorando a comida de Janaína. Era uma ração com gosto de bacon. A vasilha com água estava próxima, então nem preciso dizer que por uma noite fui cachorro louco.

Mas voltando ao assunto, vocês sabem quem sou? Pode-se notar que estou entre sujeito e um vira-lata. Ou seria um sujeito vira-lata? E mais, por curiosidade, você ficaria com alguém que, no primeiro encontro, contasse ser portador do vírus HIV com morte imediata? Que dificuldade responder. Eu sei o que é isso. Por exemplo, já passei algumas dificuldades na vida.

A principal foi correr atrasado para o primeiro dia de trabalho sem usar desodorante. Não julgue porque não foi por isso que fui despedido. O desemprego anda em crescimento no mesmo tom da rejeição ao governo. Esse assunto é bom para botequim. Falando nisso, daqui a pouco Biju vai chegar para escolher o bar que vamos fechar. Biju é desempregada, assim como eu, que recebe o nome de "empreendedora" porque vende Tapaué para as vizinhas parcelado em 13 vezes sem juros. Biju bebe de raiva. Eu só acompanho.

Voltando ao nosso prumo, "Eu sou aquele que sou", disse Javé Deus. Todavia, sabe-se lá quem sou. Bom, eu vou levantar e contar a verdade. Estou decidido.

Está escrito aqui no papel do laboratório que o resultado sai em sessenta dias. Sessenta dias. Ouviram bem? Dois meses. Eu vou morrer! Antes, porém, minha missão é descobrir quem me contaminou com o vírus. Estou aqui pensando em alguns, mas estou confuso: não pode ter sido a noiva do policial porque seria um sujeito morto antes mesmo da morte chegar. Mas era Linda, Amandinha; não pode ter sido o prefeito naquele ménage que em que quis ser esposa feito a esposa dele. 

O danado era bom de rebolado; não pode ter sido aquela garota que encontrei na fila da loteria discutindo as fraudes, mas com fé em sermos milionários; não pode ter sido o Rubens, professor de astronomia, que só queria uma sacanagem e depois passear com os filhos; não pode ter sido aquele pastor porque, assim, estaria condenado ao inferno; não pode ter sido aquela quarta-feira de cinzas na qual acordei pelado na praia; não, não pode ter sido aquela seringa de heroína.

Não posso acreditar que foi isso. Se minha família descobrir aí mesmo que morro precoce sem resultado de exame, sem nada. Então, depois vocês terão que me contar se o resultado foi positivo ou negativo.

Eu já passei dificuldades, mas encontrar quem me transmitiu o vírus antes que eu morra é, de fato, a maior dificuldade porque fiz loucuras sexuais e também com substâncias injetáveis. Fiz o que não está no manual.

Certa vez, depois da missa, bem perto da ponte do Rio doce, tive que me esconder dentro da máquina de lavar porque...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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