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Volta às aulas: entidades questionam segurança

representantes de pais de alunos, professores e estudantes contestaram efetividade no cumprimento de protocolos sanitários fixados pelo governo no retorno às atividades presenciais

08/10/2020 17h30
Por: Redação ES 24 HORAS

“Não estamos entendendo o retorno às aulas, já que o governo do Estado decretou mais 180 dias de estado de calamidade pública. Defendemos testagem em massa para professores e alunos. Não faz sentido o retorno às aulas faltando tão pouco tempo para o final do ano letivo”. As considerações são da secretária-geral da União dos Estudantes Secundaristas do Espírito Santo (Ueses), Kalianna Tolentino, uma das participantes da audiência pública realizada nesta quinta-feira (8) pela Frente Parlamentar em Defesa do Cumprimento dos Planos Nacional e Estadual de Educação sobre o retorno das aulas presenciais em tempos de pandemia.

Convidados e colegiado criticaram, entre outras coisas, a decisão do governo do Estado de retomar as atividades em sala de aula faltando menos de 40 dias para o final do ano letivo. Também pediram um diálogo mais amplo entre Poder Executivo, entidades de classe e pais de alunos quanto aos protocolos adotados.

“Até que ponto seria boa a volta de crianças e adolescentes à escola faltando menos de 40 dias para o final do ano letivo? Em que o ensino presencial alteraria e qual o motivo de intercalar com as atividades remotas?”, questionou a secretária-executiva do colegiado e proponente da audiência, deputada Iriny Lopes (PT).

 

Cumprimento de protocolos

Kalianna Tolentino também destacou a necessidade de serem observados os riscos que a retomada das aulas em sala de aula na rede pública a partir do próximo dia 13 pode trazer. Segundo ela, muitas escolas estaduais não têm estrutura para atender o quantitativo de alunos e professores. “Sabemos a realidade das nossas escolas e muitas não comportam alunos e professores com segurança, principalmente na periferia. O uso do transporte público é um dos maiores medos, já que muitos alunos e professores utilizam mais de dois ônibus por dia. Não vejo segurança para nenhum dos envolvidos retornarem nessa fase”, argumentou.

A representante estudantil também pediu explicações às secretarias de Saúde e de Educação sobre protocolos de segurança no transporte público e como será feita a higienização das salas, já que, segundo Kalianna, não foram contratados mais trabalhadores para a limpeza das escolas. A secretária-executiva da Ueses ainda informou que foi criado um movimento para reivindicar um debate sobre atividades online que foram instaladas nas escolas estaduais.

 

Educação no campo

A coordenadora do Comitê de Educação no Campo, Maria do Carmo Paoliello, afirmou que a situação é a mesma para alunos e professores da zona rural. Ela citou uma enquete preparada pelo grupo em que foram ouvidas 740 pessoas nas comunidades rurais e as reclamações também se estendem ao despreparo para as aulas online e a falta de respostas quanto à imunização de alunos e profissionais. Ela reclamou, também, da extinção dos conselhos escolares das comunidades o que, segundo Paoliello, vem dificultando os trabalhos nessas áreas.

“Os estudantes têm tido sérios problemas para participar das atividades, além de uma relação frágil entre alunos e educadores. Querem o retorno, mas estão priorizando a vida. Querem voltar apenas após a imunização total. O medo está expresso em todos os que foram ouvidos. Sem os conselhos escolares, fica mais difícil fazer valer os recursos que o Executivo repassa para custeio, o que, na prática, nos ajudaria até na higienização dos locais”, afirmou.

 

O que dizem as entidades de classe

O consenso entre as organizações representativas de profissionais de educação, alunos e pais de alunos é que falta diálogo com o Poder Executivo. Outra avaliação das entidades é que a retomada das atividades presenciais ocorre de forma precipitada.

“A gente tem uma grande preocupação com a volta às aulas. Há uma enorme necessidade de reavaliar todo esse processo. É uma situação delicada, porque não há tempo de recuperar o conteúdo. O professor não foi treinado para isso. Temos tentado trabalhar esse diálogo. Não queremos o retorno às aulas neste momento. É muito importante que o governo do Estado reveja essa situação. Todo mundo está com medo e esse momento é de dialogar e repensar para que em 2021 haja uma nova realidade na educação do Espírito Santo”, afirmou Ildebrando Paranhos, representante do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Espírito Santo (Sindiupes).

A falta de um protocolo preventivo para a retomada das aulas presenciais também foi criticada pelo secretário-geral da Associação de Pais de Alunos do Espírito Santo (Asssopaes), Aguiberto Lima. “Escola não é tecido social, como ilha isolada; ela reproduz as diferenças sociais. E a pandemia escancara isso. Defenda primeiro a vida. As aulas, depois a gente reconstrói”, afirmou o secretário que também informou ter ingressado com um mandado de segurança a fim de que a retomada seja suspensa temporariamente.

Professor, o deputado Sergio Majeski (PSB) criticou a falta de diálogo. “Nesses sete meses, deveríamos ter preparado as escolas muito melhor e os professores em termos tecnológicos. As aulas estão retornando e quais foram as ações para melhorar efetivamente o trabalho dos professores e o aprendizado dos alunos? Há uma complexidade imensa em tudo isso”, disse.

 

O que diz o governo estadual

De acordo com o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, o período é complexo para todo mundo, mas há países que já retomaram as aulas. Ele também argumenta que quase todas as atividades presenciais no estado já foram liberadas e que o risco é baixo.

“A escola pública deve ser protegida para além do currículo acadêmico. Temos outros papeis da escola pública que precisam ser resgatados e protegidos. Temos mais de 50 municípios sem óbitos há mais de sete dias. Não é correto, do ponto de vista sanitário, e não há razões para dizer que não é possível retornar as aulas”, afirmou Fernandes.

O representante da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), professor Marcelo Moura, afirmou que o retorno é necessário para evitar a evasão escolar. “Montamos um grupo de trabalho que envolve a Sesa, Ministério Público, Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), Procuradoria Geral do Estado (PGE), Conselho Estadual de Educação e Defensoria Pública. Uma pesquisa nos mostrou que cerca de 30% desses alunos afastados não retornarão mais às salas de aula mesmo depois da pandemia. A luta é para garantir a permanência desses escolares”, disse.

Segundo a deputada Iriny Lopes o Espírito Santo conta, atualmente, com 440 escolas estaduais, 3.325 alunos matriculados e 3.300 servidores em educação. Ela afirmou que nada nessa situação é simples e o raciocínio deve ser a longo prazo e com o máximo de proteção e conscientização social de que o mundo está num processo endêmico e que a vida, para ser protegida, terá que ser alterada.

“Só dentro da compreensão desse contexto eu admitiria um retorno às aulas na rapidez que o governo, através das suas secretarias, está propondo. Mas não acho que ainda há segurança para que as aulas possam retornar. Penso que os secretários devem levar ao governador essa situação: que não há condições de retomar as aulas presenciais, mas que isso precisa ser discutido mais amplamente”, considerou Iriny. A parlamentar ainda afirmou que deve realizar uma nova reunião com os representantes das pastas para saber qual foi a resposta do governador às questões apontadas durante o debate. 

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